Ponto a menos para Garibaldi: após batalha perdida para os legalistas, Anita é levada prisioneira e o companheiro segue para Lages, sem ao menos tentar resgatá-la.
Quem conta uma história do ponto de vista de Anita Garibaldi e dos fatos com os quais ela se envolveu diretamente acaba recriminando o comportamento de Garibaldi nos acontecimentos que se seguiram ao Combate de Marombas, no município de Curitibanos, na serra catarinense. Logo após a derrota republicana em 15 de novembro de 1839 em Laguna, Garibaldi, Anita e os demais farroupilhas - Canabarro, Teixeira Nunes - permaneceram acampados na Barra do Camacho durante cerca de uma semana.
Depois eles seguiram pela extensa praia sem nenhum costão até Torres, na fronteira com o Rio Grande do Sul, para onde seguiu Canabarro. Os demais homens, sob o comando de Teixeira Nunes, seguiram pelo atual município de Praia Grande em direção a Lages, refazendo o traçado do antigo Caminho dos Conventos. No dia 14 de dezembro de 1839 os revolucionários chegaram a Santa Vitória, junto ao rio Pelotas, onde se travou um combate com as forças do brigadeiro Francisco Xavier da Cunha, que acaba morrendo afogado.
Nessa vitória dos rebeldes Anita não pegou em armas, limitando-se a atuar como enfermeira, atendendo e consolando os feridos. Quatro dias depois eles chegam a Lages (ver texto à esquerda), onde mais tarde ficam sabendo da presença de forças legalistas em Campos Novos e Curitibanos. Tendo organizado uma tropa para enfrentar os homens do coronel Melo Albuquerque, Teixeira Nunes cavalga durante três dias, chegando a 1º de janeiro de 1840 nas proximidades do rio Marombas, lugar denominado campos da Forquilha, ou Capão da Mortandade.
Emboscada
Na verdade Teixeira Nunes estava sendo atraído para uma emboscada. "Submetendo-se a contragosto ao papel de simples espectadora", conta Garibaldi, "e temendo que viessem a faltar cartuchos aos soldados", Anita "provia o abastecimento das nossas munições. O fogo que éramos obrigados a fazer permitia de fato supor que, se estas não fossem repostas, em pouco tempo achariam-se esgotadas". Diversas vezes ela se aproximou do local principal da fuzilaria. A certa altura foi surpreendida por quase 20 cavaleiros inimigos.
"Excelente amazona e montada num admirável ginete, Anita poderia ter disparado e escapado àqueles cavalarianos; porém, o seu peito de mulher encerrava um coração de heroína. Em lugar de fugir, ela tratou de exortar os nossos soldados a defenderem-se, achando-se de súbito rodeada pelos imperiais. Um homem rendeu-se. Ela cravou as esporas no ventre do seu cavalo e, arrojando-se vigorosamente, avançou por entre os inimigos, não recebendo senão uma única bala, que traspassou o seu chapéu, alteando-lhe os cabelos, mas sem roçar-lhe o crânio. Anita teria podido evadir-se se o seu animal não houvesse sido atingido por um segundo tiro", descreve Garibaldi. Ela teve então que se render.
Nesse momento cada um foi para seu lado. Anita acabou conduzida perante o coronel Melo Albuquerque, enquanto Garibaldi se embrenhou na floresta e foi parar em Lages. "Há no episódio", assinala Licurgo Costa, "um aspecto desfavorável a Garibaldi: acompanhar as tropas retirantes sem fazer pelo menos uma tentativa de descobrir se Anita estava viva, onde estava e se era possível ir resgatá-la". O ex-embaixador acrescenta haver tirado "de todos os documentos estudados uma impressão desfavorável do 'condottieri'".
Antes de haver seguido para Laguna, enquanto estava envolvido com os serviços no estaleiro rebelde, Garibaldi iniciara um romance com Manuela, sobrinha de Bento Gonçalves. Alguns autores levantam a possibilidade do italiano haver aproveitado o sumiço de Anita para poder rever a antiga namorada. Manuela esperou por ele. Tanto é que morreu, solteira, na cidade gaúcha de Pelotas, com idade bem avançada, sendo conhecida como "a noiva de Garibaldi".
Sozinha, fugiu pela vegetação fechada
Tela de Willy Zumblick.
Quando foi levada à presença do coronel Melo Albuquerque, prisioneira, Anita estava "mal vestida e desgrenhada, com a voz embargada pelo ardor da peleja e por se ter afastado do marido. Sofria horrivelmente sem o demonstrar, porém, com gestos e palavras", contou 20 anos depois a jovens alunos cadetes o próprio Albuquerque. "Nossa atitude diante dela era de admiração, pois jamais havíamos imaginado encontrar uma mulher tão valorosa, catarinense, compatriota nossa, dando ao mundo tão sublime prova de valor e intrepidez", complementou o coronel.
Anita só pensava em Garibaldi. "Ela acreditava-me morto", assinala o italiano. "Movida por essa idéia, rogou e obteve a permissão para ir procurar o meu corpo entre os cadáveres no campo de batalha." Durante muito tempo ela vagou pela região onde havia sido travada a batalha, "volvendo entre os mortos aqueles que haviam tombado com o rosto contra o solo, como aqueles que, em suas vestes ou em suas estaturas, ela encontrava semelhança comigo". Quando teve certeza que Garibaldi não estava morto, tratou de fugir. Aproveitando-se de um temporal, segundo alguns autores, ou de uma embriaguez coletiva, segundo outros, ou das duas circunstâncias, Anita esgueirou-se pelo acampamento inimigo e fugiu, auxiliada por uma mulher.
Uma vez livre, embrenhou-se na mata, sozinha, evitando os caminhos mais movimentados. "Só quem viu aquelas vastas florestas que envolvem os cimos do Espinilho - com os seus pinhos seculares que parecem destinados a escorar o céu e que são as colunas de um suntuoso templo da natureza, cujas lacunas povoam-se de gigantescos canaviais e onde fervilham animais e répteis cuja picada é fatal - poderá aquilatar os perigos que ela teve de correr e as dificuldades que teve de superar", contou Garibaldi.
Entre os autores que descrevem esse momento da vida de Anita, o mais objetivo é Wolfgang Rau. Em algum ponto ela furtou o cavalo de um miliciano, com o qual prosseguiu a fuga, enfrentando diversos obstáculos, como o da travessia do rio Canoas, chegando a Lages. "Quatro cavaleiros, postados na passagem do rio Canoas, esquivaram-se à visão daquele vulto, despenhando-se atrás das moitas da riba. Enquanto isso, Anita alcançava a beira da torrente. A torrente, transbordada pelas chuvas, duplicada pelos ribeiros descendentes das montanhas, transformara-se num rio", narra Garibaldi.
"Conta-se que quando chegou ao passo dos cabaçais no rio Canoas, ao escurecer, deparou com quatro guardas que, surpreendidos por aquele vulto de mulher, de cabelos soltos, com um pala branco esvoaçante, àquela hora, montada em pelo, tomaram-na por uma assombração e fugiram, espavoridos para o mato", descreve o escritor Licurgo Costa.
"À noitinha do dia seguinte, exausta, desgrenhada, faminta", conta o mesmo autor, "chegou a um rancho situado no lugar onde muitos anos mais tarde foi criada a sede do primitivo distrito de Correia Pinto, distante uns 20 quilômetros da vila de Lages. Ali vivia com esposa, filhos e uma cunhada solteira um farroupilha vindo do Rio Grande do Sul, foragido, de nome Correia". Francisco Correia, filho desse farroupilha, contava essa passagem "com cores novelescas, comentários à margem e vários 'suspenses'".
Correia costumava começar dizendo que "já estava bem escuro quando ela bateu à porta. O pai estava ausente e a mãe e a tia se sobressaltaram, ninguém as procurava de noite e era tempo de revolução, ademais. Com grande cautela entreabriram a janela. Um vulto vestido de homem, desgrenhado, pediu pousada. Respondeu a tia que era a mais velha, que só tinham duas camas", ao que, dizia o Chico Correia, Anita afirmou "que não fazia mal, que dormiria com ela. Indignada, porém, com receio daquela figura bizarra, que não conseguia divisar bem, retrucou-lhe que era uma senhora de bem e que não devia ser ofendida por uma pessoa a quem estava atendendo com tanta consideração".
Seios
Acontece então a famosa cena em que Anita, "abrindo a camisa, mostra seus exuberantes seios para provar que era mulher". Anita tinha uma voz bonita, "nem fina nem grossa, um tom meio rouco. Mas esclarecia que não era voz de homem, porém parecida. Daí também ser confundida, pelas senhoras, com um homem", explica Licurgo.
Anita seguiu em frente. Os que pesquisaram a vida da heroína lagunense divergem em relação ao local do reencontro com Garibaldi. Um falam em Vacaria, no Rio Grande do Sul, outros que isso ocorreu em Lages, Santa Catarina. O fato é que, quando Anita localizou os farroupilhas, Teixeira Nunes teria perguntado como ela conseguira chegar até ali, ao que ela respondeu: "Vim vindo, coronel!"
Em Lages, casal vive mês de tranqüilidade
Garibaldi e Anita passaram quase um mês em Lages, onde chegaram no dia 18 de dezembro de 1839. Viveram dias felizes e tranqüilos, tendo assistido à missa do galo na Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, na noite do dia 24 para 25. Pela primeira vez os dois puderam conviver no interior de uma casa de verdade. Para alguns eles ocuparam uma casinha coberta com tabuinhas de pinho, como informa o pesquisador Wolfgang Rau.
Licurgo Costa dá outra versão. Eles teriam morado numa "pequena casa de adobe". Segundo Fernando Athayde, citado por Costa, a casa era a mesma que, "por volta dos anos 1918 e 1919, pertencia ao doutor Antônio Antunes Ribas Filho, na então rua 15 de Novembro, atual Nereu Ramos, parede e meia com o sobrado do coronel Belisário Ramos, ainda hoje existente e correspondente ao número 199 da referida via pública. A casa do doutor Ribas Filho, de número 201, foi demolida na década de 1920. Quando Garibaldi e Anita nela moraram, o nome da via era rua de Cima".
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