Quantidade de homenagens ao casal Garibaldi no país onde Anita morreu revela a profunda admiração dos italianos pela heroína brasileira.
Aqui estão os restos mortais de Anita Garibaldi", anuncia uma placa fixada no magnífico monumento com que o ditador Benito Mussolini decidiu homenagear a famosa lagunense, valendo-se de seu passado heróico para levantar os brios do povo italiano.
A localização privilegiada já indica o carinho que os italianos dedicam há anos a Anita Garibaldi. Está no Gianícolo, numa das sete colinas de Roma, na Piazza Anita Garibaldi, a 100 metros de um gigantesco pedestal construído em cimento que abriga a legendária figura de Giuseppe Garibaldi.
Naquele local, onde descortina-se uma bela paisagem do centro da capital italiana, travou-se uma das mais heróicas batalhas pela instauração da República em Roma. Garibaldi manteve o ponto estratégico com apenas 15 mil soldados, contra 65 mil dos inimigos franceses. Registrou-se ali um dos mais sangrentos combates do longo período pela implantação da República. É conhecido oficialmente como "Passegiata del Gianicolo".
Passegiata del Gianicolo
Gianicolo
A área é inteiramente arborizada. Veículos circulam em grande quantidade durante todo o dia. Lanchonetes móveis representam um bom indicativo da presença constante de turistas nacionais e estrangeiros. As obras que se realizavam nas proximidades durante os meses de junho e de julho sinalizam para alguma restauração comemorativa aos 150 anos de morte da ilustre catarinense.
A inauguração do monumento foi um acontecimento político de grande repercussão em Roma. Mussolini providenciou, em primeiro lugar, a transferência dos restos mortais de Anita Garibaldi de Nice para a capital italiana. O pedido foi feito em 1930. Como o monumento não ficou concluído, autorizou a transferência de Nice para Gênova, o que ocorreu em 1931. A imprensa da época registra uma extraordinária afluência de público. Os garibaldinos comemoram até hoje, enfatizando: "Foi o maior cortejo fúnebre da história da Itália". As associações garibaldinas na Itália reproduzem em revistas, jornais e panfletos as fotos da célebre passeata.
Gianicolo
A imensa escultura de bronze está colocada sobre um pedestal de alvenaria, medindo cerca de dez metros de largura e oito de altura. Sobre ele, uma mulher jovem montada no selim do cavalo a galope, patas dianteiras no ar. Com um revólver na mão direita e uma criança recém-nascida agarrada com a mão esquerda, junto ao peito, transmite uma imagem forte, até emocionante, mesclada de bravura e amor maternal. A obra, que levou dois anos para ser concluída, é de autoria do escultor Rutelli, avô do atual prefeito de Roma.
A base do monumento traz quatro outras esculturas em bronze escuro, fixadas nas laterais do pedestal. Uma delas retrata a célebre batalha do Capão da Mortandade, ocorrida no município de Curitibanos. Tem seis metros de largura e cinco de altura, numa reprodução da cena em que Anita Garibaldi fugiu da prisão, atravessando rios e florestas para reencontrar Giuseppe.
Uma placa de bronze na base marca a homenagem prestada há 64 anos pelos brasileiros: "A Anita Garibaldi o governo brasileiro, em comemoração ao centenário de Farrapos. 20-9-1935".
Gianicolo
Dois outros marcos históricos são lembrados pelos italianos para homenagear Anita Garibaldi. Um deles, também com uma concepção dramática, é representado pela cena de Anita às vésperas de sua morte. Idealizada pelo escultor Luzi di Rimini, o monumento foi inaugurado em 24 de abril de 1976. Fica numa pequena praça toda gramada, espaço igual à da metade de um campo de futebol, rodeada de árvores, na frente da Igreja de São Clemente, em Mandriole, na Província de Ravena.
Giuseppe Garibaldi segura Anita, já enfraquecida, olhando para o céu, como se buscasse alguma proteção milagrosa para a cura da esposa e a proteção contra o inimigo. É a imagem que se obtém em outros registros artísticos da fuga do casal, com Anita já acometida por tifo, segundo as versões mais acreditadas, com o marido sofrendo pesada perseguição dos exércitos austríacos.
O tributo prestado na Igreja de São Clemente tem motivação histórica. A capela é pequena e simples, mas marca a arquitetura do século 16. Em sua sacristia, o corpo de Anita Garibaldi foi sepultado em 11 de agosto de 1859, graças à intervenção de Dom Francesco Burzatti. Cientes da busca que os austríacos faziam do corpo encontrado na fazenda, famílias garibaldinas recolheram os ossos e esconderam em suas casas. Mediante a garantia do sacerdote de que na Igreja não haveria riscos, procedeu-se a transferência. Construiu-se então uma sacristia na capela para dar uma sepultura segura à legendária brasileira.
Na mesma região de Ravena há outra marca do amor dos italianos a Anita Garibaldi - um monumento, de porte médio, com um busto da heroína lagunense, foi construído defronte à casa da Fazenda Guicioli, onde se deu sua morte. O texto gravado numa placa de bronze destaca em enormes letras: "Do outro oceano, com cabelos ao vento e o estampido do fuzil, Anita foi para Garibaldi e para a Itália a verdadeira imagem da liberdade".
Um casarão antigo, conservado, próximo de uma estrada secundária asfaltada e bem sinalizada, conserva até hoje, intactos, o quarto e até a cama onde Anita Garibaldi morreu há 150 anos. Tem um espaço pequeno, com cerca de seis metros quadrados. As paredes estão decoradas com pinturas de Anita e Giuseppe Garibaldi, algumas individuais e outras contendo cenas do general carregando a amada já gravemente enferma. Ou de Anita sendo transportada deitada num carro-de-boi, e Giuseppe protegendo-a com um improvisado guarda-sol. E também com passagens pela região pantanosa de Ravena.
À saída, num escritório improvisado, o visitante pode adquirir diversos cartões postais de Anita e Giuseppe Garibaldi, folhetos fotocopiados e pequenas publicações. Alguns trabalhos são distribuídos gratuitamente e outros vendidos como "souvenirs". Entre todos os interlocutores italianos, do modesto empregado que atenda o casarão aos visitantes que chegam, um fato comum: profunda admiração pela jovem catarinense que ajudou a construir a unificação italiana.
Giuseppe descansa na Ilha de Caprera
Entre os troféus, documentos, cartazes, esculturas, livros e peças históricas sobre Giuseppe e Anita Garibaldi existentes na sede da Federação das Associações Garibaldinas, na praça da República, em Roma, podem ser localizadas preciosas informações sobre a principal atração turística da Ilha de Caprera, localizada no extremo Norte da Sardenha e proclamada como reserva ecológica da Itália.
Ali está enterrado Giuseppe Garibaldi. Ali ele encontrou o local ideal para o exílio e é idolatrado pela população como o principal herói italiano. As fotos e os textos relatam que há preciosidades no museu, com destaque para o poncho e o chapéu levados de suas andanças pelo Brasil.
Garibaldi adquiriu metade da ilha em 1854, cinco anos após a morte de sua amada e logo depois do retorno do segundo exílio, nos Estados Unidos. O primeiro foi no Brasil e no Uruguai. Foi condenado à morte em 1834, depois de participar de uma revolta fracassada, já desfraldando a bandeira de uma Itália unificada, independente e republicana.
Vivendo em Caprera e já famoso na Europa, Garibaldi foi promovido ao posto de general pelo Conde de Cavour, mais com o objetivo de neutralizar seu poder do que para vê-lo em ação bélica.
Cartas
Há testemunhos seus sobre ações desenvolvidas no Sul de Santa Catarina, cartas amorosas dirigidas a Anita e relatos de sua passagem pelo Uruguai. Em relação a Laguna, merece destaque sua atuação na instalação da República Catarinense, em 29 de julho de 1839.
Anita nunca viveu na ilha, mas sua memória é reverenciada por Giuseppe e pela direção do museu. Pelos depoimentos de dirigentes garibaldinos em Roma, os guias turísticos da Ilha de Caprera cometem uma injustiça: falam muito da epopéia de Giuseppe na Itália e no Uruguai e praticamente nada de sua permanência no Brasil ou em Santa Catarina.
Toda a família Garibaldi está enterrada na Ilha de Caprera.
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