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                                                                                                  Celso Martins


Ana Paula Arósio no papel de Anita Garibaldi. Foto de Elaine Cristina.



Primeiro filho do casal nasce no Rio Grande


Doze dias depois, mãe foge de ataque legalista com o bebê nos braços. Surge a célebre cena que inspirou tantos artistas .


O dia 16 de setembro de 1840 é muito importante para o casal Garibaldi. Nessa data, na paróquia de São Luiz de Mostardas, no Rio Grande do Sul, nascia o primeiro filho do casal - Domenico Menotti Garibaldi. Domenico, ou Domingos, era o nome do pai de Giuseppe e Menotti, uma homenagem a Ciro Menotti, patriota italiano executado em 1831. Foi um momento singular na vida dos Garibaldi, tanto pela maternidade, como pelas dificuldades que enfrentariam em terras gaúchas.

Eles chegaram a Viamão, próximo de Porto Alegre, em meados de 1840, vindos da serra catarinense. Depois de instalados, Garibaldi retomou as atividades guerreiras, havendo participado do frustrado ataque a São José do Norte, enquanto Anita cuidava da gravidez. Poucas semanas antes do parto ela foi levada para a casa da família Costa, na localidade de São Simão, junto à Lagoa dos Patos. Giuseppe voltou ao estaleiro farrapo, encarregado de construir escaleres, projeto que não deu certo.

Poucos dias após Anita haver dado à luz, o marido dirigiu-se a Viamão, em busca de suprimentos e víveres, principalmente para o novo membro da família. "Já distanciado em algumas milhas", recorda nas Memórias, "ouvi uma estrepitosa fuzilaria dos lados que eu acabara de deixar. Sobrevieram-se algumas suspeitas, mas eu não podia tornar ao ponto de onde partira. Assim cheguei a Setembrina (Viamão), onde adquiri agasalhos de que necessitava. Depois disso, ainda preocupado com aquela fuzilada, tomei o rumo de São Simão." Foi quando ele ficou sabendo do que havia ocorrido - um ataque legalista às forças rebeldes, comandado por Francisco Pedro de Abreu (Moringue), futuro barão de Jacuí.

Anita estava sozinha com Menotti, com apenas 12 dias de vida, sendo avisada na última hora do ataque. Foi quando, sem hesitar um só minuto, tomou o filho nos braços e fugiu. Isso aconteceu "sob uma inclemente tempestade", assinala Garibaldi. "Montada em seu cavalo, andrajosa, com seu pobre filho de través sobre a sela, vira-se forçada a buscar refúgio na mata."

A primeira coisa que Giuseppe fez, ao saber do ataque, foi procurar a mulher no rancho dos Costa. "Não encontrei Anita nem a boa gente que lhe dera albergue. Localizei-os, porém, na ourela de um capão, de onde não se haviam arredado, sem saber exatamente por onde andava o inimigo e se tinham ainda alguma coisa a temer", destaca. Essa fuga espetacular de Anita inspira até hoje os poetas, músicos, escultores e artistas plásticos.

Henrique Boiteux, por exemplo, um dos que primeiro narrou a cena, salienta o fato de Anita ter sido "constrangida a saltar a cavalo, em noite tempestuosa, com a simples roupa do corpo, trazendo aos braços o precioso fardo, e correr por entre os silvados e barrancos à procura de um lugar seguro onde se pudesse esconder e agasalhar aquele pedaço de sua alma".



No Uruguai, cuidava da família e da casa




Os recém-chegados foram recebidos em Montevidéu pelo carbonário Napoleão Castellini, que hospedou o casal e o pequeno Menotti durante algum tempo. Era junho de 1841. Garibaldi vendeu os couros para garantir o sustento imediato da família, obtendo emprego como professor de matemática e história, auxiliado pelo padre Paul Semidei, diretor do colégio.

A ajuda da maçonaria foi fundamental para Garibaldi naquele momento. Nas horas de folga atuava como mascate, aproximando-se dos marinheiros italianos no porto, inteirando-se de tudo o que acontecia na Itália. Assim que consegue alugar a casa número 114 da rua do Portão de São Pedro, Garibaldi ingressa no movimento de resistência contra as investidas do ditador argentino Rosas. Sua primeira missão foi a chefia da corveta Constituição.

Anita, por seu lado, começa um longo período como mãe e dona-de-casa, enquanto o marido cumpre tarefas militares. Ao chegar em Montevidéu, cidade com 31 mil habitantes, Menotti tinha nove meses de idade, sendo batizado no dia 23 de março de 1843. Pouco antes, os dois haviam se casado na Igreja de São Bernardino. Rosa (Rosita), a segunda experiência materna de Anita, faleceu no dia 23 de dezembro de 1845. Em 22 de março de 1846 nasceu Teresa e em 24 de fevereiro de 1847, Riccioti. Quando morreu, em 4 de agosto de 1849, já na Itália, Anita estava grávida há seis meses.

A família Garibaldi levou uma vida quase miserável em Montevidéu, tendo faltado comida, agasalho e até mesmo vela para iluminar a casa. Mas houve o lado bom. Nesse período Anita pôde conviver com outros exilados da Itália, adquirindo conhecimentos, ouvindo experiências e dominando outros idiomas, como o italiano e o espanhol, enfim, ampliando os horizontes. Acompanhou de perto a formação da Legião Italiana, que chegou a contar com 600 componentes - muitos acompanharam Giuseppe, posteriormente, nas lutas pela Unificação. Anita também cultiva a amizade fraterna de dona Bernardina, esposa do presidente Uruguaio, Fructuoso Rivera.

Quando Rosita morreu, Garibaldi estava fora lutando. Anita arrumou as malas e seguiu em sua direção, navegando pelo rio Uruguai até Santo Antônio do Salto, onde passou a residir por algum tempo. Surgem cenas de ciúme, verdadeiras explosões, ao saber dos namoros do marido naquela região. É clássica a cena em que Anita exige de Garibaldi o corte dos cabelos, que, segundo ela, atraíam as mulheres. Mais tarde retornam a Montevidéu, no mesmo momento em que as agitações revolucionárias começam a dominar a Europa e também a Itália.

Acompanhada por Menotti, Teresita e Ricciotti, Anita embarca em dezembro de 1847 com destino a Gênova. Ela vai na frente para sentir o "clima político" na Itália e verificar a possibilidade do retorno do marido, contra quem pesa uma antiga sentença de morte. Garibaldi parte em abril do ano seguinte. Antes de embarcar, porém, furta do Cemitério Central de Montevidéu os ossos da filha Rosita, levando-os consigo.



(Continue a leitura em ANITA GARIBALDI II, página 2)


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