Assim, não parece em vão que Ulysséa polemize com a cidade vizinha de Tubarão, uma vez que essa estava tomando o lugar de pólo regional até então ocupado por Laguna. Foi Tubarão a primeira cidade a apresentar um melhor desempenho com os bons índices da indústria carbonífera. O historiador como bom representante das elites tradicionais, para querer resguardar algum espaço de prestígio perante os demais municípios, investe na positivação de seu passado. Ou seja, se a posição de relevo não mais se dava pela condição econômica de Laguna, há um investimento em transformar a cidade em “centro cultural” e “terra-mãe” do sul do Estado. A produção histórica lagunense do período, na qual Ulysséa foi bastante atuante, é marcada por essa construção de identidade. O destaque que a cidade anteriormente ostentava, como principal escoadouro e cidade sede do sul, começou a se tornar uma importância histórica, uma valoração como lugar de tradição.8 (BITENCOURT, João Batista. Dissertação (Mestrado em História) UFSC, 1997.Clio positivada: a artesania da cidade histórica de Laguna. Florianópolis:)
No que tange ao segundo conflito aludido, pode se perceber a emergência de um novo grupo político que ascende à administração pública naquele período. Personagem de maior destaque de tal grupo, o prefeito Giocondo Tasso, que passou a responder pelo executivo lagunense em 1933 e permaneceu até a queda do Estado Novo, demonstra uma percepção diferenciada daquela encontrada em Ulysséa. Filho de imigrantes italianos, Tasso representava uma nova elite e encampava uma proposta de cidade para Laguna ajustada aos padrões de desenvolvimento industrial. O governo Tasso é marcado pelo maneirismo político estodonovista. Muitas das facetas da maneira de governar de Vargas são encontradas em Laguna durante a sua longa gestão, elementos da cultura política do Estado Novo, como: obras e campanhas eugênicas de preocupação com a questão raça; a utilização da imprensa como propaganda do governo para criar a imagem de líder carismático, chefe de estado com clarividência, pai protetor, líder moralizador e construtor da nacionalidade; festividades patrióticas que buscavam incutir na população o sentimento cívico de amor à nação e a seus “líderes”. Aqui procura-se visualizar a imagem de guia da cidade a um destino de progresso, vinculada ao desempenho econômico. A propaganda política o idealizava, destacando sua capacidade administrativa pautada na honestidade, capaz de alçar a cidade a patamares de grande desenvolvimento, conferindo a seu governo um período de inegável prosperidade e capaz construir um futuro ainda melhor.
Deve-se destacar que, filtrados os arroubos da propaganda política, a administração Tasso apresentou um volume de obras que, de certo modo, permitia suportes para o florescimento de um sonho de desenvolvimento. Além de implantar na cidade uma aura de ordem e civismo bem ao gosto da cultura política do Estado Novo, construindo a idéia de povo ordeiro e cidade feliz, Tasso empreendeu em sua longa passagem pelo executivo municipal grandes obras de viação e diversos serviços urbanos, como canalização de água e esgoto, rede de energia elétrica e calçamento de ruas. Assim como, foram construídas diversas edificações públicas e particulares que alteraram a paisagem urbana e arquitetônica. Indiscutivelmente seu maior empenho era na construção do novo porto, pois na obra encontrava-se a questão nodal do desenvolvimento do município; era aquele era aquele empreendimento a possibilidade de enquadramento da cidade nos benefícios que a expansão carbonífera proporcionava.
O novo porto construído no bairro Magalhães, próximo à barra facilitada, a entrada das embarcações livrando-as de adentrarem a lagoa, constantemente assoreada. Os trabalhos que passaram a ser realizados na barra melhoravam as condições de navegação, uma vez que ano após anos faziam diminuir o banco de areia ali existente, passando de 700 metros no final de 1938, para 300 no final de 1939 e chegando a 125 metros no início de 1940.9 (9 Relatório do Prefeito Municipal de Laguna ao Interventor Federal em Santa Catarina. Laguna, 1940. P. 16.).
A grande notícia com relação ao enquadramento do porto lagunense no dinamismo do desenvolvimento carbonífero surgiu em 1940, quando da visita de Getúlio Vargas a Santa Catarina. Em encontro com o presidente, Tasso ouviu do próprio a promessa de que uma grande verba federal seria destinada aos trabalhos de viabilidade da barra e ao aparelhamento do porto, para torná-lo o escoadouro principal da produção carbonífera.10 (10 O ALBOR. Laguna, 16 de março de 1940. P. 01.)
Promessa que se efetivou já no ano seguinte com a construção do cais e obras complementares, além da intensificação dos serviços de melhoramento da barra. O grande volume de obras, nas quais foram empregados mais de 600 trabalhadores, e o índice crescente da exportação do carvão criavam, segundo o semanário futuro cheio de vida progressiva e bastante promissor a nossa terra”.O Albor, “a certeza de um 11 (11 O ALBOR. Laguna, 12 de julho de 1941.).
O impulso gerado com a reabilitação do porto constituía uma atmosfera de crença nas possibilidades aquele momento para transformar a realidade econômica do município. A propaganda política forjava a imagem do prefeito, e dos demais “líderes” do Estado Novo, como o arquiteto de uma “Laguna moderna”, criador de um presente prenhe de expectativas e de um futuro promissor. Os jornais estampavam notícias animadoras apresentando os “soberbos reflexos de progresso” que colocariam a cidade em uma marcha rumo a um futuro de grandeza econômica. Chaminés fumegantes e comércio vibrante era a idealização de uma realidade que não tardaria, um horizonte de prosperidade com o qual Laguna tinha um encontro marcado. Assim o progresso averiguado naquele momento e, principalmente, a possibilidade de desenvolvimento futuro que era apresentada, levava a uma apreensão otimista da cidade, notadamente no sentido de um vir a ser, uma perspectiva de amanhã.
A visão que Tasso formulava para Laguna estava ligada a uma idéia de progresso própria da sociedade industrial, inserida em uma lógica de aceleração, de velocidade, de “auto-destruição inovadora” que marca a modernidade. Na concepção do prefeito, Laguna adentrava a um universo de prosperidade constante, no qual se credita ao futuro uma realidade melhor que a presente, por se acreditar em um evolucionismo irreversível do mundo, dentro de uma temporalidade linear e progressiva.monumento construído em Laguna em 1943, torna-se uma alegoria privilegiada da apresentação de uma visão sobre a cidade que acreditava na participação do município nos benefícios da economia do carvão e ensejava um futuro de prosperidade.12 (12 Sobre o tempo da modernidade, consultar: HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola,1992. BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. 9ª reimpressão.São Paulo: Companhia das Letras; 1992. WHITROW, G. J. O tempo na história: concepções de tempo dapré-história aos nossos dias. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.) Nesse sentido, o monumento construído em Laguna em 1943, torna-se uma alegoria privilegiada da apresentação de uma visão sobre a cidade que acreditava na participação do município nos benefícios da economia do carvão e ensejava um futuro de prosperidade.
Navio Capivari no Porto Carvoeiro de Laguna. Foto de Dalmo Mendes Faísca.
Todas as fotos do Porto foram gentilmente cedidas por Dalmo Mendes Faísca.
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