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                                             Professor João Batista Bitencourt


(Continuação)


Sintomaticamente construído em frente ao porto carvoeiro, no Magalhães – bairro que ganhou notoriedade em função do novo porto e de toda a movimentação em torno dele, inclusive a construção de um ramal ferroviário – o monumento a Getúlio Vargas e aos trabalhadores do carvão, minas e portos, surgiu de uma vontade do Interventor Nereu Ramos e do empenho de Giocondo Tasso em articular os prefeitos dos municípios do sul de Santa Catarina para erguer aquela homenagem ao “grande chefe da nação brasileira” e impulsionador do progresso econômico Sul catarinense.13 (13 Ofício do Prefeito Municipal de Laguna, Giocondo Tasso, ao Interventor Federal, Nereu Ramos. Laguna, 30 de outubro de 1941.).


O monumento é bastante fiel aos princípios estadonovistas, a dimensão política nele é bastante aparente. Blocos de pedra geometricamente talhados unem-se para formar uma estrutura de linhas retas, na qual encontra-se encravada a esfinge de Getúlio Vargas acompanhada da frase: “habituei-me a ver a pátria como um todo sem fronteiras, formando perfeita unidade moral e material”. Extrai-se dessa relação estrutura-esfinge a representação da política concebida pelos ideólogos do Estado Novo. As idéias de Estado personalista e nação como um corpo, são dadas a ver. Os blocos de pedra unidos lembram as diversidades que deveriam ser apagadas em nome da conciliação nacional, a noção de nação como grande comunidade acima dos interesses de grupos, suplantando divisões internas. Produzindo esta “comunidade política imaginada”, aparece a figura do “guia” congregando a sociedade e definindo a aspiração, o caminho a seguir.


A nação é concebida enquanto dois pólos: povo e chefe, corpo e cabeça. O corpo, sem autonomia, que anula suas vontades em nome da nação, é representado pelos blocos de pedra, o povo não pensa; dentro dessa leitura corporativa, ao corpo cabe cumprir as determinações definidas pela mente, para o bom desempenho total do organismo. À
mente, representada pela esfinge de Vargas – apenas sua face, a cabeça pensante – cabe os atributos superiores, o raciocínio, assim pode ela coordenar as ações do corpo e estabelecer suas tarefas. A metáfora da nação como um corpo, largamente utilizada pelos ideólogos do Estado Novo, demarca bem dois campos para a constituição da sociedade nacional: a população, cumpridora de obrigações e sem vontades próprias; o Estado, centrado na figura do “líder”, a quem cabe controlar, dirigir e definir o papel do primeiro. Tal concepção demonstra o autoritarismo do regime, pois ao povo, sem liberdade, cabe apenas responder ordeiramente ao comando e realizar vontades que não são suas.14 ( 14 Sobre a cultura política do Estado Novo, consultar: LENHARO, Alcir. Sacralização da política. 2ª ed.Campinas: Papirus, 1986. PARANHOS, Adalberto. O roubo da fala: origens da ideologia do trabalhismo no Brasil. São Paulo: Bom Tempo, 1999. CAPELATO, Maria Helena R. Multidões em cena: propaganda política no varguismo e no peronismo. Campinas: Papirus, 1998.).


O destaque à política encontrado no monumento, para além das implicações próprias do Estado Novo, pode ser relacionado com a situação de Laguna dentro do contexto do desenvolvimento econômico daquele momento. O surto de progresso assistido no sul catarinense vinha da exploração do carvão, minério não encontrado no subsolo do território municipal, assim a cidade para adentrar nos benefícios daquela prosperidade dependia de uma fértil atividade política, que superasse as dificuldades do porto e enquadrasse o município no complexo da indústria carbonífera. Não em vão, política e economia estão imbricadas na simbologia do monumento.


A estrutura em pedra é ornamentada de elementos em bronze, esses elementos parecem narrar uma história, relatam o processo de extração do carvão na região e sua expansão com o governo Vargas.
Nas laterais dois grupos de ornamentos mostram homens desnudos a extrair e carregar carvão, esses homens são representados no exercício de um trabalho altamente difícil e penoso, eles retiram o minério apenas com pedaços de ferro e o transportam em seus próprios ombros; é uma imagem que demonstra um processo de produção artesanal e rudimentar, sem aparelhamento tecnológico e de esforço físico brutal, o trabalho é
exaustivo e pouco produtivo.  A imagem das laterais é convertida, em um painel no fundo do monumento, em racional, tecnológica, industrial; no painel homens, agora vestidos, trabalham na extração, embarque e uso siderúrgico do carvão. Na parte frontal, observa-se o motor da transformação contada entre os adereços das laterais e do fundo, a cabeça de Vargas aparece como protagonista do desenvolvimento da indústria carbonífera. Se o carvão foi o elemento do progresso da região, tal progresso só se efetivou com a utilização racional e industrial promovida pelo “chefe” do Estado Novo.


Nos anos 40 do século passado, o obelisco do Centro e o monumento do Magalhães eram os dois únicos marcos do gênero erguidos pelo poder público a demarcar o espaço urbano de Laguna e assim permaneceram por vários anos. Deve-se esclarecer que embora já figurassem neles duas percepções sobre a cidade, ou possibilitam tal leitura na atualidade, elas não encenavam um conflito declarado, tanto que o obelisco foi construído na gestão Tasso e ensejava também uma relação, ainda que indiretamente, com Getúlio Vargas, visto que ao homenagear os acontecimentos da Republica Catarinense de 1839 se estabelecia elos históricos com o Rio Grande do Sul. Foi somente em 1964 que se ergueu na cidade um novo marco. Esse, novamente de referência pretérita, deu início a uma
tendência que se confirmou nos anos posteriores de erigir balizas de caráter histórico, compondo um cenário urbano pontuado de sinalizações da identidade que insistentemente se atribuí à cidade.


Inaugurada em 20 de setembro de 1964, a estátua de Anita Garibaldi já vinha sendo pensada desde 1956, ano em que foi criado o museu que também leva seu nome. Instalada na praça Conselheiro Mafra, que mais tarde passou a ser denominada praça República Juliana, em frente ao museu, a estatua de Anita tomou o lugar do obelisco de 1939, sendo transferido para a praça Pinto Bandeira. O monumento é composto de uma estrutura em granito, lembrando a proa de um navio, ornado com um friso em bronze, no qual são apresentadas algumas passagens da vida da personagem. A parte de traz da estrutura forma uma laje tumular, concebida com o propósito de receber os restos mortais da heroína. Sobre o pedestal, assenta-se a estátua de Anita estancando um ato de bravura; com uma das mãos segura uma arma em repouso enquanto a outra se ergue aos céus.


No momento em que foi construído o monumento a Anita Garibaldi, a economia
lagunense não mais apresentava o entusiasmo do período Tasso. Já em meados dos anos 40,
quando os trabalhos de melhoramento no porto e na barra estavam sendo concluídos, os engenheiros envolvidos afirmavam que as soluções técnicas empregadas não davam conta de vencer as condições naturais adversas e impediam qualquer conjectura quanto ao futuro do porto.15 (15 SUL DO ESTADO. Laguna, 14 de fevereiro de 1942. P. 01.). Situação que se agravou com os novos ritmos da extração carbonífera que, com a criação da usina de Volta Redonda em 1945, ganhou um grande impulso – a produção catarinense de carvão mineral passou de 265.638 toneladas em 1940 para 1.005.174 toneladas em 1950 16 ( 16 CUNHA, Idaulo J. Evolução econômico-industrial de Santa Catarina. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1982. P. 150.) – e precisou de um transporte de maior envergadura, o que complicava ainda mais a situação de Laguna, pois seu porto não comportava a entrada de navios de grandes calados. De 1950 para 1960 o porto de Laguna apresentou uma queda do movimento de mercadorias da ordem de 70%, resultante do crescimento do transporte rodoviário e da especialização do porto da vizinha cidade de Imbituba no embarque do carvão.17 (17 PELUSO júnior, Victor A. A evolução urbana de Santa Catarina no período de 1940 a 1970. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, Florianópolis, 3ª fase, nº 1. p. 103-180. 2º sem. 1979. P.146).


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