Texto originalmente publicado nos Anais do II Congresso Sul-Americano de História, e ainda disponível no site do II CONGRESSO SUL-AMERICANO DE HISTÓRIA .
A cidade de Laguna-SC é o palco do enfretamento e também o objeto da disputa, o vencedor dita a identidade urbana. No ringue se encontram: de um lado, no centro da cidade, pousada sobre um pedestal de granito de 2,20m altura, Anita Garibaldi; do outro, no bairro Magalhães, encravado em uma estrutura também em granito medindo 11,50m de altura, Getúlio Vargas.
Dois personagens, dois momentos, duas temporalidades, duas propostas de cidade. Construídos em épocas distintas, os monumentos a Anita Garibaldi e a Getúlio Vargas ensejam dois diferentes projetos para Laguna e combatem na disputa por direcionar a memória social e definir a identidade da cidade.
Construído na primeira metade da década de 1940, o monumento do Magalhães é uma referencia ao seu próprio tempo, refletia o sonho de prosperidade que naquele momento, com a conjuntura da segunda grande guerra e o investimento na indústria de base do governo Vargas, a exploração de carvão no sul catarinense afigurava para Laguna. Ele é uma referência ao presente, com uma temporalidade que aponta para o futuro e significa progresso. O monumento do centro, construído em 1964, quando a queda da atividade portuária era patente e a cidade já não ocupava mais a posição de lugar central do sul de Santa Catarina, é uma referência histórica, volta-se para o passado, demarca uma tradição, uma imagem para a cidade que não mais se pauta pelo sonho industrial de futuro.
Em 1934, o historiador local Saul Ulysséa, escrevendo sobre as “paginas heróicas” do passado lagunense, principalmente em relação aos episódios da República Juliana, condenava que na cidade nada havia para lembrar às gerações futuras os feitos dos ilustres filhos da terra.1 (1 ULYSSÉA, Saul. João Henrique Teixeira. Anuário Sul Catarinense. Laguna: Tip. Central, 1934.) único marco público criado para lembrar um personagem era uma árvore consagrada à Anita Garibaldi.2 (2 ULYSSÉA, Saul. Coisas velhas. Florianópolis: IOESC, 1946. P. 128-130.). Cinco anos mais tarde, quando das comemorações do centenário da República Juliana, uma missa campal no dia 29 de julho, como parte dos festejos do centenário, marcou a inauguração de um obelisco em homenagem “aos heróis lagunenses da epopéia de 1839” e “a heroína de dois mundos”.3 (3 O Albor. Laguna, 08 de agosto de 1939. P. 01.).
A construção daquele monumento público, o primeiro da cidade, respondia as preocupações de demarcar simbolicamente a tradição que se forjava para Laguna, a qual Saul Ulysséa era um dos arquitetos e porta-voz orgânico das elites tradicionais, das quais partia aquela identidade. Quando dos festejos do centenário o historiador declarou: “nós lagunenses devemos pelo menos deixar marcadas na pedra ou vazadas no bronze as homenagens de respeito e veneração aos antepassados que tão alto ergueram o nome de nossa terra”.4 (4 ULYSSÉA, Saul. O centenário da República Juliana. O Albor. Laguna, 21maio 1939. P.1.).
As problematizações de Ulysséa quanto à inexistência até aquele momento de marcos simbólicos de referência ao passado estão vinculadas a uma polêmica com a cidade vizinha. Tubarão havia erguido um monumento a Anita Garibaldi, conferindo à localidade de Morrinhos o local de nascimento da heroína. Condenado como indevido por Ulysséa, pois segundo ele Anita teria nascido em um outro lugar também chamado Morrinhos, mas em território lagunense, a polêmica revela outras disputas que não se localizam no tempo pretérito. Pode-se observar nas preocupações de Ulysséa outros conflitos: o primeiro deles, de cunho externo, se refere à ameaça da perda da centralidade regional que Laguna apresentava diante das cidades vizinhas; o segundo, de desdobramento interno, reflete a circulação de elites na própria cidade e o esvaziamento da hegemonia do circulo das famílias tradicionais as quais o historiador estava vinculado.
Os anos 30 do século passado iniciaram-se com uma elevação do déficit da balança comercial brasileira, como efeito da crise de 1929 e da depressão que se seguiu, provocando a crise do café, a desvalorização da moeda e o aumento do preço dos produtos importados, o que deu iniciou a um processo de “substituição das importações”. Em função disso ocorreu um aumento produtivo da extração carbonífera em Santa Catarina, processo acelerado pelas medidas de proteção ao carvão nacional por parte do governo brasileiro, que estabeleceu uma vasta legislação de incentivo à produção e ao consumo.5 (5 BOSSLE, Ondina Pereira. História da Industrialização Catarinense: Das origens à integração no desenvolvimento brasileiro. CNI-FIESC, 1988. SOUTO, Américo A. da Costa. de Santa Catarina Assistência Gerencial de Santa Catarina-CEAG/SC, 1980.Evolução histórico econômica: Estudo das alterações estruturais (século XVII-1960). Florianópolis: Centro de Assistência Gerencial de Santa Catarina-CEAG/SC, 1980.).
O desenvolvimento da economia do carvão fez florescer cidades como Tubarão e Criciúma que passaram a despontar economicamente ultrapassando Laguna, que até então era a cidade central da região, pólo no qual gravitavam as cidades vizinhas. Laguna era a mais antiga cidade do sul catarinense, todas as demais surgiram de desmembramentos do seu território e durante muito tempo manteve-se como centro aglutinador dos demais municípios, situação que começou a se transformar com o crescimento da indústria carbonífera, na medida que essa possibilitou a elevação da atividade econômica dos demais municípios do sul do Estado 6 (SILVA, Etienne Luiz. Catarina Desenvolvimento econômico periférico e formação da rede urbana de Santa. Porto Alegre: Dissertação (mestrado em planejamento urbano e regional) UFRGS, 1978.). Isso não quer dizer que Laguna não tencionava o progresso que se afigurava com o dinamismo da exploração do carvão, pelo contrário havia a intenção de que o porto da cidade se tornasse no escoadouro principal daquela produção, o que seria até uma decorrência natural do papel que já desempenhava.
Porém, os problemas de viabilidade da barra e do porto dificultavam a entrada mais efetiva do município nos caminhos da prosperidade verificada com o carvão. Apenas a título ilustrativo, podemos comparar alguns dados dos censos de 1940 e 1950, quando o processo de estagnação perante os demais municípios era mais evidente. Por exemplo: o crescimento populacional lagunense passou de 32.772 habitantes para 38.189, enquanto o de Criciúma passou de 27.679 habitantes para 50.854. Já o volume de capital aplicado no comércio varejista de Tubarão passou (valores em Cr$ 1.000) de 3.573 para 10.770, enquanto em Laguna o crescimento não foi tão expressivo, passou de 1.639 para 4.661.7 (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo comercial e Censo demográfico, 1940 e 1950.)
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