O frustrado ataque dos farroupilhas a São José do Norte, visando a conquista de um porto de mar, e a concentração de tropas imperiais na região, levou o estado-maior rebelde a executar uma retirada organizada. Uma coluna - da qual faz parte o casal - toma o caminho da serra, sob o comando de Canabarro, enquanto a outra acompanha Bento Gonçalves pelo Litoral. "Aquela retirada, empreendida na estação hibernal, no meio de uma região montanhosa e sob uma chuva incessante, foi a mais terrível e a mais fatal que jamais vi", recorda Garibaldi nas "Memórias".
A retirada durou três meses. Durante esse tempo Anita "sofreu tudo o que se pode humanamente sofrer sem a entrega da alma ao diabo", suportando a adversidade com "estoicismo e com uma coragem inexprimível". Os retirantes passaram por privações devido à falta de meios de transportes, "tendo no laço o único recurso de aprovisionamento". Para o "cúmulo das desgraças, os rios, bem próximos entre si naquelas matas virgens, enchiam sobremaneira, e a tenebrosa chuva que nos acossava não cessando de cair, uma parte das nossas tropas via-se freqüentemente aprisionada entre dois cursos d'água, e lá ficava privada de todo alimento", complementa Garibaldi.
Nas "alturas mais perigosas" e nas travessias dos rios, Menotti era levado pelo pai, "suspenso por um lenço" junto ao corpo, "de modo que eu podia aquecê-lo com a minha respiração". Restavam a Garibaldi quatro das 12 mulas e cavalos que havia levado. Para complicar a jornada, os guias se perderam no interior da "assombrosa floresta". A certa altura Anita seguiu na frente a cavalo, com a criança e um serviçal, tendo encontrado mais à frente um piquete farroupilha. Por sorte, eles estavam com o fogo acesso, apesar das fortes chuvas, e tinham agasalhos de lã, com os quais Menotti foi aquecido, assim como a mãe.
Na região de Vacaria a coluna de Canabarro aguardou a de Bento Gonçalves. Retomando a marcha, os farrapos seguiram para Cruz Alta, tomando o rumo de São Gabriel. É quando Garibaldi decide seguir para Montevidéu, acompanhado de Anita e Menotti. "Pedi minha dispensa ao presidente", diz, referindo-se a Bento Gonçalves, e "a permissão para arrebanhar uma pequena quantidade de reses", que pretendia ir vendendo pelo caminho. Cerca de 900 cabeças foram retiradas da fazenda Curral das Pedras, com autorização do ministro rebelde das Finanças, Domingos José de Almeida. Inexperiente como tropeiro, Garibaldi foi perdendo a manada pelo caminho, nos charcos e travessias dos rios. As reses que restaram foram abatidas e os couros levados a Montevidéu.
Personagens são cultuados pelos gaúchos
A presença dos Garibaldi no Rio Grande do Sul é cultivada pelos pesquisadores Elma Sant'Ana e Cary Ramos Valli. Enquanto a primeira lidera o Piquete de Anita, com base em Porto Alegre, o segundo vasculha os sinais das atividades de Giuseppe na marinha rebelde, sendo presidente do Farroupilha - Grupo de Pesquisas Históricas. "Atuamos sozinhos, sem apoio oficial, e por isso não conseguimos dar conta", explica Sant'Ana, autora de várias obras resgatando a presença de Anita e sua família naquele estado.
A memória de Anita e Giuseppe começou a ser registrada em 1911 com um monumento ao casal em Porto Alegre. A iniciativa foi da colônia italiana gaúcha, que encomendou o trabalho em Carrara (Itália), instalado-o na praça Garibaldi no dia 20 de setembro, data da conquista de Roma em 1870. Na placa está escrito: "Giuseppe e Anita Garibaldi. Ai Riograndensi la Colonia Italiana XX Settembre 1870". Infelizmente, o monumento não está bem cuidado. "Faltam três dedos de Anita, que tem o nariz quebrado. A inscrição está quase apagada", lamenta Sant'Ana.
Em várias cidades gaúchas foram plantadas mudas da Árvore de Anita (figueira) existente em Laguna, mas não recebem a devida atenção. A de Mostardas, por exemplo, onde nasceu o primeiro filho da heroína, morreu. Não são conhecidas as condições e a localização de outras que estão em Viamão, Caçapava, Vila de Itapuã e praça Garibaldi, na Capital. "Quando iniciamos as cavalgadas do Piquete de Anita, escolhemos essa praça como ponto de partida", assinala Sant'Ana. As Anitas do piquete vão estar hoje em Laguna, acompanhando a passagem dos 150 anos da morte da inspiradora.
Apesar de todos esses problemas, muita coisa está sendo feita em torno de Anita no Rio Grande do Sul. Elma tem realizado palestras em escolas, "plantando as sementes", além de idealizar um Roteiro Garibaldino, abrangendo alguns municípios por onde o italiano passou - Capivari do Sul, Tramandaí, Cruz Alta, São Gabriel e Passo Fundo. Também estão sendo estabelecidos convênios de intercâmbio entre Mostardas e Aprília (Itália), onde está enterrado o filho ilustre Menotti Garibaldi. Outras cidades do Rio Grande estão sendo envolvidas.
Tradicionalistas gaúchos diante do Monumento em Laguna.
A população gaúcha conhece e reverencia a memória de Anita. No ano passado, o radialista Lauro Quadros, da rádio Gaúcha, organizou uma pesquisa de opinião para saber a posição dos ouvintes sobre a campanha para o translado dos restos mortais de Anita da Itália. "Cerca de 70% dos que se manifestaram afirmaram que ela deve permanecer onde está. O programa teve muita repercussão e audiência", relata Sant'Ana, para quem isso demonstra o interesse público. "Como cidadã brasileira acho que os restos mortais deveriam vir para cá, mas como mulher e gaúcha, não", complementa.
Anita Garibaldi foi a personalidade feminina escolhida para marcar o 15º aniversário da Federação das Mulheres Gaúchas (FMG), comemorado em julho de 1997. Na ocasião, a pesquisadora Yvonne Capuano falou no Museu Júlio de Castilhos sobre "Anita Garibaldi, Uma Heroína de Dois Mundos". A escolha, segundo a presidente da FMG, Maria Amália Martini, se deu, especialmente, por ter sido "uma gaúcha com longa trajetória de lutas e conquistas". Anita é considerada gaúcha há muito tempo. "O Albor" de 24 de junho de 1934 dizia que "Anita já não é mais nossa", lembrando que "um experimentado historiador e escritor emérito, reportando-se ao 'ímpeto e bravura da mulher riograndense', apresentou-nos Anita na roupagem duma sublime gauchada, como autêntica heroína dos pampas".
Fonte: Jornal A Notícia
*Celso Martins da Silveira Júnior: "Nasci em Laguna-SC em 23.11.1955. Vim morar em Florianópolis em 1959. Me criei na região da Trindade. Morei em Joinville de 1980 a 1986. Jornalista e historiador. Fotografo. Resido em Sambaqui desde 1989." (Dados de seu blog "Fragmentos do Tempo" - veja mais na seção Links).
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