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                                                           Saul Ulysséa (Coisas Velhas)





Muitos são os historiadores que se tem ocupado de Ana de Jesus Ribeiro, apelidado por José Garibaldi, Anita (1).

Êsses escritores fazem referências à vida da heroina, após sua ligação com o guerreiro italiano, baseado em suas “Memórias”.

Poucos se referem à sua vida anterior àquela época.

Não mencionam com acerto a localidade onde ela nasceu, nem os lugares onde viveu com sua família, nem as condições da sua vida, seu primeiro casamento e outras minudências.

Não conheço uma biografia completa.

É o que pretendo fazer baseado não sòmente no que há escrito  com verdade, como na tradição conhecida em Laguna, minha terra  e principalmente no que ouvi de contemporâneos de Anita, notadamente de uma respeitável senhora que foi vizinha da heroina e que com ela conversava quasi que diariamente. Ouvi várias vezes referência a Anita por um sobrinho seu, filho de uma de suas irmãs, um antigo  funcionário municipal morto há alguns anos, de nome João Fraga, assim como de velhos moradores do lugar onde ela nasceu, e passou os primeiros anos de sua infância.

É possível que haja alguma pequena falta, mas penso aproximar-me o mais possível da exatidão, certo como estou da responsabilidade dessas pessoas informantes.

Delas ouvi narrativas, quando menino, e que guardo em minha memória que conservo nítida, apesar de minha idade avançada.

Poderia ter obtido informações mais detalhadas, de minha avó materna que residia nas proximidades da casa de Anita, na mesma rua em que ela morava, porém minha avó era inimiga acérrima dos farrapos e não permitia que em sua presença se falasse na heroina, nem em Garibaldi e principalmente em Canabarro

Tinha razão minha avó.

Meu avô José Dias de Pinho, negociante de fazendas, era legalista e por esta razão foi perseguido e preso tendo sido esfaqueado na prisão.

Talvez por excesso de entusiasmo pela legalidade dou despreso pelos farrapos motivassem sua prisão.

Tal antipatia generalizou-se na família que era então e ainda é numerosa.

Reconhecendo porém o heroismo de Anita e da nenhuma culpa que lhe cabia no caso, tornei-me um admirador e com razão.

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Ana de Jesus Ribeiro nasceu em Morrinho do Mirim, município de Laguna, em 1821 (2).

Filha de Bento Ribeiro da Silva, apelidado Bentão, devido à sua corpulência e de d. Antônia de Jesus Ribeiro. Êle natural de Lajes e ela da província de São Paulo.

 
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(1)     A heroina conhecida pelo nome de Ana de Jesus Ribeiro e é de presumir que assim seja, devido ao sobrenome do seu pai, Ribeiro da Silva, entretanto na certidão do seu primeiro casamento com Manoel Duarte está exarado: Ana Maria de Jesus, cuja cópia apresentamos neste trabalho.

(2)   Outra nota interessante: na certidão do referido casamento está declarado ser ela de São Paulo. Ou há ai um equívoco com a natalidade de sua mãi que era paulista ou é feita a declaração de Anita por facerice de moça, proferindo ser filha de uma cidade de certo adiantamento que de uma localidade muito pequena, como era Mirim naquela época.

(2) É julgado erroneamente que Anita nasceu em Morrinhos de Tubarão. Julgo entretanto que a heroina nasceu em Morrinhos de Mirim, Município de Laguna. Neste trabalho encontrarão a demonstração do que afirmo.

Bento Ribeiro e sua mulher mudaram-se da região serrana par Mirim acompanhadas de dois filhos pequenos.

Tinha Bentão parentes em Mirim, descendentes de João Machado de Sousa, lavrador, cuja família ainda existe naquela localidade.

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Depois do nascimento de Anita e outra irmã, mudou-se a família para Morrinhos, no município de Tubarão, então fazendo parte do município de Laguna.

Acredito que motivou a mudança o fato de serem as terras de Tubarão mais uberrinas que as de Mirim, onde Bentão se dedicára à lavoura como os seus parentes ali residentes.

De Morrinhos mudaram-se para Carniça, município de Laguna, nas proximidades da foz do Rio Tubarão, que desagua no canal da barra de Laguna.

Em Carniça há um grande campo de criação, o que faz supor que Bentão o procurasse com o fim de se dedicar à criação de gado, à cuja lida se havia ocupado quando vivia na região serrana.

De Carniça veio Anita com sua mãi para a então vila de Laguna.

Não sabemos se Bentão faleceu em Carniça ou se dali tomou outro rumo e nem notícias dos irmãos de Anita.

O que se tem certeza é que êle era falecido em 1835 por estar exarado na certidão do primeiro casamento de Anita, efetuado em 30 de Agôsto daquele ano na Matriz de Laguna (3).

Para a vila vieram sòmente Anita com sua mãi e foram morar na rua do Rincão, hoje Fernando Machado, em uma casinha de porta e janela, atualmente reformada tendo o número 25.

Esta informação é segura e prestada por d. Ana Tôrres Guimarães, senhora respeitável, esposa do comendador e tenente-coronel João José de Sousa Guimarães.

É esta a informante a quem me referi.

D. Ana Guimarães morava na rua da Igreja, hoje Conselheiro Jerônimo e o quintal de sua residência tinha um portão para a rua do Rincão, fronteiro à casa onde morava Anita com sua mãi.

Ouvi d. Ana contar, que seguidamente conversava com Anita quando ia ao portão, muito perto, aliás, porque a rua era e ainda é muito estreita, cêrca de quatro metros.

Eram muito pobres.

Anita bela morena de grandes olhos negros e muito criança.

Quando saiu de Morrinho do Morim para Morrinhos de Tubarão deveria ser muito pequena, porque moraram ali algum tempo, depois em Carniça e para Laguna veiu com menos de quatorze anos porquanto com esta idade contraiu o primeiro matrimônio com Manoel Duarte de Aguiar.

Anita manifestava pouco ou nenhum entusiasmo pelo casamento com Manoel Duarte, sapateiro, o que aceitou para atender aos desejos de sua mãi.

Talvez a pobreza em que viviam fôsse a causa dêsse matrimônio.

Muito criança e bonita aspirava naturalmente um casamento melhor, não tendo simpatia por aquele que ia ser seu marido (4).

Êle, pouco tempo depois de casado, deixou-se levar pelo abuso do álcool, aumentando naturalmente o aborrecimento ou talvez desgôsto de Anita.

 

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(3)   Paginas adiante, encontrará o leitor a cópia do registro de casamento de Anita.

(4) Transcrevo páginas adiante, sob o título “Uma nota antiga” a falta de entusiasmo de Anita pelo seu primeiro casamento.

Deveria aquela mulher superior, como demonstrou, ser bastante infeliz, ligada àquele homem.

Quando em Laguna entravam os farrapos ou pouco tempo depois, o marido de Anita, que era legalista, se retirou da vila e se foi juntar às forças legais, talvez em conseqüência da falta de felicidade no lar.

Ficaram Anita e sua mãi na maior pobreza.

Contava então dezoito anos, bela e com o coração livre, fácil foi apaixonar-se por Garibaldi.

Conta a tradição que Garibaldi com ela se encontrara no lugar Figueirinha, onde é atualmente o edifício do Forum.

Existia naquele local muitas fontes de lavagem de roupa, não sendo de duvidar que Anita ali estivesse para a lavagem de sua roupa e de sua mãi.

Garibaldi foi tomado de viva simpatia pela bela Ana Ribeiro. Talvez a beleza de Anita fizesse esmorecer os sentimentos amorosos que Garibaldi sentira em Rio Grande por uma sobrinha de Bento Gonçalves, com quem pretendeu casar, cujo casamento lhe foi muito diplomaticamente recusado, com a afirmação de que era ela noiva, sem o ser.

A esquadrilha farroupilha tinha por fundeadouro o canal da barra, próximo ao Morro, à entrada do porto. Talvez fôsse em conseqüência de estar Garibaldi distante da cidade e já existir entre êles algum namoro, que motivou a mudança de Antônia de Jesus com sua filha para o pequeno povoado da Barra.

Ali mais fácil seria o encontro dos namorados, o que se verificava continuadamente.

Do senhor Fernando Henrique Teixeira, importante negociante em Laguna, filho do bravo João Henrique Teixeira, ouvi muitas vezes contar que era menino quando entraram os farrapos em Laguna e que muitas veses viu Garibaldi passeando naquele povoado, onde Fernando morava com sua família. Naturalmente nesses passeios encontrava Anita. Adiante encontrarão uma narrativa a tal respeito.

Em 20 de outubro de 1839 ao seguir Garibaldi, com três navios para o corso aos barcos que faziam a cabotagem, despediu-se de Anita.

Ela porém, pensando na arriscada emprêsa que ia inicial o homem que tanta simpatia despertara em seu coração, não se conformou com a separação e propôs acompanhá-lo.

Garibaldi não quis arriscar na aventurosa emprêsa, a vida da mulher que tanto amor lhe despetara.

Anita porém, destemerosa, preferiu arriscar a sua  vida ao lado de seu amante. Fingiu a separação, ao despedir-se de Garibaldi.

Quando porém, a esquadrilha fazia-se de vela para a saída, Anita tomou uma embarcação e, ébria de alegria e coragem, apresentava-se a bordo do “Rio Pardo”, navio chefe onde se achava Garibaldi.

Êste demonstrou a Anita o risco que correria sua vida naquela duvidosa emprêsa.

Ela declarou que tinha coragem bastante para enfrentar o perigo e que preferia morrer com êle a chorar pela sua morte.

 

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Garibaldi e Anita. Fonte: Museo di arte moderna, Mantova.



(5) Já li a afirmativa de que o oficial João Padilha, pretendeu casar-se com Anita, sendo recusado por seus pais.

Não sei em que se basearam para tal afirmar.

Quando os farrapos entraram em Laguna já Anita era casada.

Seria em Carniça ou Morrinhos ?

Não quero crer porque Anita veiu para a Laguna talvez com menos de doze anos e seu pai era um lavrador desconhecido, vivendo na roça.

 

Garibaldi cedeu aos desejos de Anita compreendendo o amor que aquela mulher lhe dedicava.

Não poude deixar de levá-la consigo, julgando, com razão, que era uma mulher de coragem pouco vulgar.

La seguiram para o mar imenso, para a luta, talvez para a morte.

Foi a esquadrilha até o porto de Santos.

Perseguidos pelos navios da esquadra legal, rumou para a Laguna.

Na altura de Imbituba caiu forte pampeiro que obrigou  a arribada àquela enseada.

Ali verificou-se o ataque de três navios da esquadra legal aos dois navios de Garibaldi e uma bateria que êle armara no morro próximo.

O terceiro navio saido de Laguna dispersou-se, quando foram atacados pelos legais próximos a Santos.



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