Quando ela morreu, vítima de uma doença e após ter participado de inúmeras batalhas, tinha a idade que tenho hoje quando aqui escrevo, pacificamente sentada numa tarde de sol.
Deve ter tido uma morte tumultuada e deixado este mundo com uma intensa preocupação com os filhos que ficariam sem estar completamente criados. Deixar o grande amor também. O grande amor homem e o grande amor ideal. Tudo isto deve ter sido duro para ela.
Fico muitas vezes imaginando como seria a cabeça daquela lagunense do século passado que se via dengosa e valente, com idéias que até hoje uma grande maioria de lagunenses não consegue absolutamente entender.
Deve ter sido difícil para ela ter se apaixonado por um homem liberal, viajante e sem os mesmos princípios que ela aprendera em família de cidade pequena.
Para demonstrar sua grande paixão ela não precisou derramar doces lágrimas sobre seda cor de rosa. Foi preciso derramar sangue sobre a terra crua, ver este sangue transformar-se em filhos vivos e mortos, aprender a matar e a salvar vidas.
Quando ela passeava pelas ruas antigas da Laguna vendo o mar e a lagoa, as quimeras que delineavam o horizonte por trás dos morros tão verdes, talvez ela sonhasse com um príncipe encantado que viesse do além mar buscá-la, transportando-a para um outro mundo.
Ela cresceu sapeca, sem as formalidades de uma sociedade da qual nem conhecia bem a existência. Possuía a alegria pura da menina nascida no interior do interior.
Às vezes, quando penso na totalidade desta heroína consagrada, vejo-me buscando o ser que ousou hibernar dentro da estátua que foi esculpida para render-lhe homenagem.
Quando ela partiu de Laguna acompanhando o guerreiro por certo tinha em mente também o amor e a cabana chegando em sua vida mais cedo ou mais tarde. Não deve ter sido fácil assumir uma posição de amazona quando, quem sabe, precisasse somente de um colo.
Colo para quem pouco tempo teve um pai; para quem teve um homem a seu lado a quem chamou marido sem saber sequer o significado e a constância da palavra.
Rebelde? Mas e o que era ser rebelde nos anos de 1800? Querer viver? Talvez... Naqueles anos, rebeldia era rebeldia por muito pouco, muito, muito menos do que hoje...
E ela era destemida como toda mulher é quando uma paixão aflora e toma o olhar. Toda mulher, naqueles anos e hoje também. O perigo está sempre aí, dentro destas paixões, no fogo de existir acima de seu próprio ser.
Ela partiu da vila e tantos habitantes a chamaram de prostituta, de mulher vã, de mulher qualquer. Seu corpo nunca mais voltou lá.
Nas nuvens do eterno ela deve achar engraçado o fato de ver-se em bronze em meio à praça, observada com a atenção que se dedica aos heróis dos quais se conheceu a fama e não a vida.
Não há testemunhos hoje de quem tenha sido verdadeiramente Ana.
Uns dizem com orgulho – e este orgulho se daria também por suas filhas? – ter sido ela uma mulher de fibra, guerreira farta de coragem e dona de uma beleza incomum que soube conquistar com luta um lugar na história. Dizem outros, Ana foi a filha de família simples, crescida entre os verdes, morros e águas, da velha Laguna. Outros ainda pintam-na como intrépida figura difusa entre o destino ofertado e o escolhido, sem uma imagem clara da mulher.
Vejo Ana como vejo tantas mulheres. Bonitas e feias, dependendo de quem as olha ou como se olham no espelho; obscuras e vivas, dependendo em que situações se encontram. Mulheres capazes de muito, seres inteiros.
E o que admiro mais do que tudo em Ana Maria foi sua capacidade de amar. Amou um homem com todas as suas forças e com esta mesma lealdade e força amou povos e suas causas, não se importando com nomes, com qualidades, com culturas e mundos. Ela fez seu mundo.
Deu de si a José e a seus filhos não somente como a esposa e mãe que poderiam esperar, mas como Ana, Ana Maria de Jesus Ribeiro, nascida e crescida para dar vida a vida. Anita.
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