Ana Paula Arósio no papel de Anita Garibaldi (foto de Elaine Cristina).
Descreveremos o combate de 15 de novembro de 1839 em meio a biografia de Anita, porque naquele combate ela demonstrou a maior bravura, como no de Imbituba.
Quando se aproximava a esquadra Imperial e na iminência de ser travada a batalha ela estava a bordo do “Rio Pardo” com Garibaldi. Indo êste à terra para verificar as baterias na fralda do morro próxima ao canal de entrada, confiou o comando do navio a Anita.
Depois de inspecionar as baterias sóbe Garibaldi ao morro para observar o movimento da esquadra imperial que demandava a barra, já se achando próxima à entrada.
Antes que êle voltasse para bordo do “Rio Pardo” é iniciado o combate pela esquadra legal, de fóra da barra.
Não tinha Garibaldi chegado a bordo já a intrépida Anita havia iniciado o fogo sendo ela própria quem deu o primeiro tiro de canhão.
Continúa a luta com desigualdade de fôrças.
Garibaldi volta para bordo do “Rio Pardo”, antevendo a derrota e desejando salvar a vida de Anita, determinou que ela fôsse à terra a fim de pedir refôrço a Canabarro, chefe das fôrças farroupilhas, já acampadas no Campo da Barra.
Recomendou a Anita que ficasse em terra, com o fim de poupar-lhe a vida. Mas a heróica mulher não se queria separar de Garibaldi, apesar do combate renhido que então se travava. Tinham já os navios legais transposto a barra e metralhavam ininterruptamente a pequena esquadra farroupilha.
Foi Anita e voltou sob o turbilhão de balas sililando.
Destemerosa, a peito descoberto, e de pé, no pequeno bóte, atravessou aquele inferno de fogo, trazendo a resposta de Canabarro de que não dispunha de refôrço e que Garibaldi efetuasse a retirada com armas e munições que pudesse retirar de bordo dos navios, incendiando-os.
Enquanto Garibaldi continuava a combater, Anita em um pequeno bóte carregava armamentos e munições para terra. Fez muitas viagens sem temer o mortífero combate, sempre de pré na popa do bote!
Que quadro maravilhoso e sugestivo! Uma linda mulher de 18 anos de pé, na popa de uma pequena embarcação, atravessando um pandemônio de balas de fuzilaria e de canhão, sem a menor manifestação de amor.
Após várias viagens arriscadas tomára Garibaldi o mesmo bote, acompanhado de Anita e foi de embarcação em embarcação incendiá-las.
E assim terminou a epopéa farroupilha, no canal da barra.
Lutaram com galhardia e intrepidez.
Assim terminou a epopéa riograndense e lagunense naquele tremendo combate.
A maior parte das guarnições de pequenos barcos, pereceu na luta e os corpos daqueles bravos iam despedaçados pelos ares ao explodir os paióis de pólvora de dois navios, tendo por túmulo as águas mansas do canal.
Grande parte das guarnições era lagunense como o comandante da “Itaparica”, navio chefe, o denodado João Henrique Teixeira, cujo corpo foi despedaçado ao explodir o paiol de pólvora do navio de seu comando.
De todos os comandantes só escapou Garibaldi.
Derrotada a esquadrilha seguiram as fôrças do Campo da Barra para o sul e com elas a heroina lagunense em penosa jornada até Tôrres.
Em terra, conservou Anita a mesma coragem demonstrada no mar.
De Tôrres, seguiram para Vacaria, na região serrana.
No primeiro encontro com as fôrças legais, no passo de Santa Vitória, em 14 de Dezembro, não foi a alma de guerreira que predominou, mas o coração de mulher.
Aquele que tombava na luta, era cuidado pela jovem que corria por entre os combatentes, sob o esfuziar de balas, prestando socorros.
Continuaram as fôrças em marcha arriscada para o alto da serra, durante um mês, não dando aquela mulher fórte, a menor demonstração de fraqueza nem desânimo.
No combate de 12 de Janeiro de 1840, no Campos das Forquilhas, foram as fôrças farroupilhas derrotadas.
Anita é feita prisioneira. Ali deu novas demonstrações de bravura.
Ia ela na retaguarda das fôrças conduzindo munições, quando foi surpreendida e cercada por esquadrão inimigo que se achava oculto nas matas.
Intimada a render-se, recusa com altivez. Atira o inimigo e uma bala atravessa-lhe o chapéu. Não se assusta aquela mulher destemida que investe contra o inimigo de espada em punho, instigando os soldados que a acompanhavam, à reação.
Outra bala deita por terra a cavalo em que montava sendo então feita prisioneira e desarmada.
Foi levada à presença do coronel Melo e Albuquerque, comandante legalista, que tratou-a com pouca consideração, bem como um oficial de nome João Padilha.
Apesar dêste revés, não se lhe abate o ânimo, nem a coragem para suportar sua embaraçosa situação.
Correu no acampamento a notícia de que Garibaldi havia sido morto no combate travado.
Aquela mulher fórte e altiva, não quis dar, diante do inimigo, mostras de seu profundo desgôsto, sufocando seu pesar que seria desrespeitado e talvez escarnecido pelos seus inimigos.
Já escurecia quando ela pede licença para procurar o cadáver de Garibaldi, o que lhe foi concedido.
Lá se foi ela de cadáver em cadáver, para verificar se era o de seu querido amante.
Parecia uma alma penada a vagar pela terra.
Às vezes era obrigada a mover a cabeça de um cadáver para melhor verificar.
Não encontrando o que procurava, resolveu fugir, mas, como se eram muitas as sentinelas?
Conseguiu entretanto.
De uma das moitas afastadas, procurando a direção do mato, de rastos para que não fôsse vista por nenhuma sentinela e com mil cuidados conseguiu alcançar a mata próxima, onde se embrenhou.
Alcançando outro campo, deitou a correr.
Noite fechada e por lugares invios, poude depois de muito caminhar, encontrar uma casa.
Relutou em aproximar-se, na dúvida de que ali morasse um partidário dos revolucionários ou um inimigo.
Resolveu aproximar-se cautelosamente.
Encontrou-os acordados.
Era gente bôa e hospitaleira, como geralmente é a nossa gente do interior, que se compadecendo daquela mulher foragida e angustiada, recebeu-a com agrado.
Com grande surpresa ali encontra uma pala que reconhece ser de Garibaldi.
Mais aumenta a sua angustia ao pensar que aquele objeto de uso, fosse retirado do cadaver do guerreiro.
Conseguiu trocá-lo pelo chale que a cobria e obteve um cavalo, seguindo imediatamente, julgando, com razão, que seus inimigos já tivessem verificado a sua fuga e que estivessem em sua perseguição.
E aquela mulher audaciosa e destemida, segue a galope atravessando picadas e córregos, chegando a atravessar um rio, segura às crinas do animal. Noite tormentosa.
Atravessou rios, estradas, serviu-se de posadas diversas, sempre corajosa e guiada por moradores de sítios por onde passava ou se detinha para comer ou dormir e oito dias depois dêsse feito de audácia chegou em fim à Lajes.
Teve a suprema ventura de ali encontrar Garibaldi, e aquela mulher, cheia de ousadia e firmeza de ânimo, desfez-se em lágrimas nos braços do amante.
Ana Paula Arósio no papel de Anita Garibaldi (foto de Elaine Cristina).
Cada vez mais aquela mulher despertava admiração e mesmo assombro a Garibaldi.
Seguiram depois com a tropa para Rio Grande do Sul sem acidentes. Durante muito tempo nada houve de extraordinário na vida de Anita.
Em Mostarda, no dia 10 de Setembro do ano de 18409, deu ela à luz ao primogênito que tomou o nome de Menotti.
Poucos dias depois é atacada a praça pelas fôrças do Major Abreu.
Garibaldi estava ausente tendo ido à Setembrina e seus homens não só querendo bater a fôrça invasora que era numerosa, retiraram-se para as matas próximas, às pressas.
Anita acompanha-as, temendo ser aprisionada, levando nos braços seu filhinho com apenas doze dias, em uma chuvosa noite e sòmente com a roupa do corpo.
Garibaldi encontra Anita após a retirada do inimigo e voltam para a sua casa, onde pouco se demoraram, mudando-se para Capivari de onde se retiraram poucos depois.
Continuaram as fôrças em movimento até que se localizaram em São Gabriel, onde foi estabelecido o Quartel General.
Anita acompanhou sempre as fôrças com o seu filhinho, sob mil cuidados.
Sentia-se mais aborrecida que cansada daquela vida e assim também Garibaldi.
Então um ideal mais sublime empolga a vida do casal – constituir um lar, onde o Menotti, o seu enlevo, pudesse descançar.
Conseguiu Garibaldi dispensa do serviço militar e seguiu com Anita para Montevidéo em 1842.
Em 26 de Março de 1842 santificaram a sua união com o casamento efetuado na Igreja de São Francisco de Assis em Motevidéo.
Diz sua neta Anita Garibaldi que foi efetuado o casamento civil em Montevidéo.
Garibaldi lecionava em um colégio e os seus vencimentos mal davam para sustentar a pequena família. Anita fazia todo o serviço da casa.
Mantiveram-se na pobreza e aquela mulher que foi tão grande na luta era corajosa na adversidade, não proferindo uma queixa , sempre alegre, causando admiração a Garibaldi, que não se cansava de demonstrar a todos, o seu orgulho por possuir tão sublime esposa.
Viviam felizes na pobreza.
Teve Anita em Montevidéo mais dois filhos, Ricciotti e Terezinha.
Garibaldi pretendia voltar para a Itália levando sua família, mas faltavam os meios pecuniários para a viagem.
Mais tarde, em Novembro de 1847, com alguma economia e auxílio de amigos, conseguiu recursos para a viagem de Anita com seus três filhos. Para Nice seguiu a heroina com êles, para casa dos parentes de Garibaldi.
Seguiu êle em Abril de 1848.
Chegou à sua terra em uma época de política agitada na Itália.
Entregou-se Garibaldi de corpo e alma aos partidários da unificação Italiana que êle julgava, com razão, ser a forma mais consentânea com a grandeza da Itália.
Anita não quis deixar de acompanhar o marido na campanha. Reacende-se sua alma de guerreira.
Moça ainda, contando 27 anos, segue Garibaldi no meio de tropa.
Conta Garibaldi em suas “Memórias”:
“No combate de Lecinio travado corpo a corpo, lá estava Anita. O cavalo que montava é atingido por uma bala e morto. Antes porém arrasta Anita que se não intimida; levanta-se e pula na garupa do cavalo em que eu montava. Estava a corajosa mulher muito machucada. Logo depois sente-se desfalecer. Deitei-a no arção da sela e amparando-a, consigo escapar a galope através das forças inimigas.
Restaura suas fôrças acompanhando-me durante a campanha”.
Em Ricta, Garibaldi convenceu-a de que deveria voltar para Nice e cuidar de seus filhos que ficaram sob os cuidados da avó.
Anita acedeu aos desejos do marido, vacilante entre a preocupação de que êle poderia morrer longe dela e as saudades dos filhos.
Pouco tempo esteve em Nice; não se conteve e seguiu para Roma, onde Garibaldi havia estabelecido o seu Quartel General. Foi acompanhado de um ferrenho Garibaldino que lhe serviu de guia.
Atravessaram zonas inimigas.
Correndo várias vezes o risco de ser atingida por bala.
No quartel onde então se encontrava Garibaldi em Spada recebeu a esposa com surpreza, tomado da mais viva alegria.
Apresentou-a aos seus oficiais, orgulhoso de sua querida e corajosa esposa, como asseverou então.
Os oficiais a admiraram mais pela coragem, que pela beleza física. Na retirada de Roma acompanhou o marido, sugeitando-se a tôdas as vicissitudes, apesar do seu estado adiantado de gravidez.
A 2 de julho de 1849 retirou-se de Roma, Garibaldi com suas fôrças procurando evitar o inimigo e passando os maiores trabalhos até entrincheirar-se em Citerra.
É ali que Anita dá a sua última manifestação de heroismo.
Um destacamento colocado em certo ponto para deter o inimigo, foge em debandada com a aproximação dêste.
Anita que vinha na retaguarda das fôrças, percebendo a fuga, corre ao seu encontro de espada em punho, gritando: “covardes, enquanto uma mulher debate, vocês fogem? (1)
Informado Garibaldi da derrota das fôrças revolucionárias, resolve fugir com as suas fôrças, para Veneza, por mar, tendo para isso obtido alguns barcos de pesca.
Começa, aí a via dolorosa de Anita.
Navegavam as pequenas embarcações quando foram avisadas de que se aproximavam alguns navios da esquadra austríaca.
Ordena Garibaldi que as forças tomem rumo diversos, para não despertar suspeitas. O barco em que viajava com Anita procura a costa podendo com grande custo desembarcar em Magnavacca.
Anita sentia-se doente e sem fôrças para resistir a caminhada. Era atormentada por uma febre alta.
Os que desembarcaram tomaram várias direções, ficando Garibaldi com Anita e o capitão Liggiero.
Andando a pobre Anita com dificuldade, toma-a Garibaldi nos braços, chegando a uma cabana deserta, onde é ela deitada em um monte de palha.
Pouco depois ali chega Giovani Bonnet, partidário da revolução, que vira Garibaldi desembarcar e que o procurava com o fim de prestar-lhe auxílio.
Bonnet levou-os para a casa de um amigo, nas proximidades, mas compreendendo que ali não havia segurança porque os austríacos andavam em procura dos revolucionários, levou-os para casa de um de seus parentes de onde se mudariam logo que obtivessem meios de pô-los a salvo.
Dali seguiram em um barco, ordenando Bonnet que os transportassem para a fazenda do marquez de Guiccioli.
Os barqueiros, temendo a perseguição e prisão, por conduzir Garibaldi, abandonaram os fugitivos na costa de Panero, perto de Santo Ângelo.
A pobre Anita jazia no fundo da embarcação, com febre alta e em extrema fraqueza.
Garibaldi tomou-a novamente nos braços, deitando-a em um carro que obtivera e seguiram para a fazenda do marquez.
Quando ali chegaram já estava a heroina agonizante.
Foi deitada em um confortável leito e examinada por um médico que ali estava casualmente, que declarou ter Anita poucos momentos de vida, o que se verificou.
Às quatro horas da tarde do dia 4 de Agôsto de 1849 expira Anita nos braços de Garibaldi. Contava 27 anos de idade.
E assim terminou a vida da heroina lagunense.
Brava ao extremo jamais temeu os horrores da guerra.
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(1) “Memórias” de Garibaldi.
Entregava sua alma ao Creador, longe da Pátria e dos filhos, porém junto ao homem que idolatrava e por quem sacrificara a sua vida por não querer que êle morrese longe dela.
Naquela mulher destemida e forte existia um coração de mulher: espôsa amantíssima e abnegada e mãe extremosa.
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O corpo de Anita repousa em Nice no cemitério do Castelo; sôbre a urna uma grinalda de perpétuas onde se lê:
Suos Figli, a Anita 1887.
Em três placas de marmore lê-se as seguintes inscrições:
Et les patriotas d’Alger
À Anita Garibaldi
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La comité Franc-Italien
De
Menton
à Anita Garibaldi
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Les Garibaldines
a
Anita Garibaldi
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A Union Garibaldine de Nice mandou construir, por subscrição pública, um monumento de mármore no cemitério do Castelo, colocando a seguinte inscrição:
A la memoire de Anita Garibaldi
Dans les cendres sont deposités ici
Souvenir
Eigé por subscrition public
Em Roma há um monumento com a seguinte inscrição:
La pátria l’amiraIl mondo l’adora
*Foi conservada a ortografia original do texto.
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