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Tela de João Rodrigues Jr. exposta no Boulevard em 1989.



Há alguns anos atrás (vários...) nós tivemos um barzinho chamado "Boulevard". Pequeno, aconchegante, muito depressa ele se tornou o lugar preferido de muitos artistas e apreciadores de arte, jornalistas, radialistas, gente jovem e de mais idade. Fazíamos exposições semanais (pintura, desenhos, poemas, fotografias), shows preparados ou improvisados, cozinha tradicional ou inventada pelos clientes. Era, como disse um jornalista de Florianópolis na época, um barzinho underground muito especial, o melhor da cidade. Sem modéstia, vai: era mesmo! As pessoas que o freqüentavam fizeram com que ele tivesse momentos fantásticos, inesquecíveis. O Boulevard tinha vida. Falava com a voz de seus cantores e freqüentadores, mostrava suas faces a cada exposição. E a alma artista daquele canto tomava proporções que ninguém havia imaginado antes. Tínhamos livros (grandes cadernos pretos) que circulavam entre os presentes. Muita gente deixou emoções ali. Cada página daqueles livros guardava em si pedaços dos que freqüentavam. Quantas vezes eu via alguém escrevendo ou desenhando naquelas páginas e depois fechando o caderno com um sorriso que não existia quando tinha chegado.(Não me perguntem pelos livros hoje. Infelizmente foram roubados da casa de uma amiga e nunca mais tive notícias. Foi uma grande maldade que fizeram comigo, dói ainda esta falta.) Estava no quarto volume quando o barzinho fechou. O Boulevard poderia ter ido longe mas infelizmente o preconceito de certas pessoas unido à inveja de outras fez com que passássemos de um barzinho moderno e acolhedor a antro de sabe-deus-o-quê. Falaram mal, chamaram polícia, tudo pelo bem-estar da moral e dos bons costumes. Que infelicidade, ali só tinha alegria. O maior símbolo do preconceito foi a exposição do artista incomparável João Rodrigues Jr. Entre as telas expostas existia uma chamada "O Homem Nu". Fantástica. E forte, eu imagino, pois quase matou boa parte da população da cidade. A mesma parte, retrógada, que conseguiu sobreviver para nos afogar. O Homem Nu ganhou cuecas do autor, coitado! O Boulevard fechou por falta de clientes e, em conseqüência, de verbas. E de tristeza. Mas, como a Fênix, o Boulevard transformou-se num Manifesto... (outra hora eu conto...).

Ao som de: Laura Fygi (Live at Ronnie Scotts, um dos melhores discos dela, divino.)

Eu consegui!!! Fotografei a tela antes dos inquisidores vencerem!!!!!!!!!!!!!!!!

(Texto publicado no blog Certas Linhas Tortas em 27 de setembro de 2006.)

                    


                         JOÃO RODRIGUES JÚNIOR, UM GRANDE ARTISTA


Apesar do acentuado preconceito de muitas pessoas, a exposição foi um sucesso. Joãozinho, grande artista, com seus desenhos e telas, encantou muita gente. Gente culta, inteligente o suficiente para saber que um homem nu, assim como uma mulher nua, nada mais são do que o maior exemplo da perfeição do universo.

E João, nas suas horas vagas, ainda nos encantava com aquela sua voz inconfundível... quem podia querer mais?