Na Laguna, os cinemas e teatros sempre fizeram parte da vida social da cidade. Aqui tivemos teatros, como o 7 de Setembro, e cinemas que marcaram época, como o Central, o Poeira, o Palace (depois Arajé), Cruzeiro, Roma e Cine-Teatro Mussi, e que até hoje são lembrados. Pois primeiramente vou focalizar um pouco da história do Cine-Teatro Mussi. E faço em partes, porque a matéria é longa, mas penso que interessante.
Foi no final da década de 40 quando os irmãos Mussi (João, Carlos e Mussi Dib Mussi) deram início à construção do grandioso prédio que abrigaria o teatro e cinema. A obra foi construída pela firma Tecidos João Mussi, num então terreno baldio, com inúmeras palmeiras, onde a gurizada jogava bola e era área utilizada também para instalação de circos que regularmente chegavam à cidade. A imprensa da época registrou o fato, toda elogios pelo empreendimento. Não era para menos. “Todo o interior desse majestoso prédio é de um acabamento impecável, destacando-se o harmonioso conjunto artístico do teto, com a graciosidade das paredes laterais a par de uma iluminação toda indireta, formada por mais de 1.800 lâmpadas”.
Foto de Valmir Gudes Jr.
Não leitor, não é engano não, eram mil e oitocentas lâmpadas que embelezavam o local, com suas luzes e vitrais. A lotação era de mil lugares, com 700 poltronas estofadas na primeira platéia e 300 de madeira na segunda platéia (parte de cima). Mobiliário todo fabricado em Rio Negrinho-SC, considerada a cidade com melhores fábricas de móveis até então. A sonoridade trazia a marca de moderna aparelhagem, o que tinha de melhor na área, com 30 wats de potência. Aparelho - não esqueçamos -, valvulado. A entrada do Cine-Teatro, com suas escadarias de mármore, por si só já era maravilhosa e arrancava exclamações de admiração do público. A inauguração do Cine-Teatro Mussi deu-se num domingo, 17/12/1950, às 15 horas, com corte da fita simbólica pelo prefeito da Laguna Alberto Crippa e proprietários. O filme de estréia, às 21 horas, foi “A Valsa do Imperador”. Filas se formaram nas duas bilheterias desde cedo, ingressos esgotados, naquela noite e nas seguintes. Todos queriam conferir a suntuosidade do empreendimento, inclusive moradores de cidades vizinhas. Durante quatro décadas, e até fins dos anos 80, o Cine-Teatro Mussi foi local de encontro social da comunidade lagunense. Em sua tela foram projetados filmes épicos da história do cinema mundial. Em seu palco se apresentaram inúmeras companhias teatrais com artistas de renome nacional e internacional. Além de cantores e cantoras, apresentações musicais, formaturas, desfiles, concursos de calouros...
Estas palmeiras foram sacrificadas para a edificação do prédio do Cine Teatro Mussi. Evidentemente esta foto foi tirada por volta de 1945/46. Foto e comentário de Carlos Araujo Horn
O grande ator Procópio Ferreira, por exemplo, aqui esteve em temporada de quinta a terça-feira, 25 a 30 de novembro de 1954. Casa cheia todas as noites, um grande acontecimento que marcou época.Após seu fechamento, como teatro e cinema, suas instalações também serviram para atividades religiosas, arrendadas que foram à Igreja Universal. A Fundação Lagunense de Cultura também lá se instalou, quando o local foi reaberto por um curto período.
Um dos ingressos padronizados do então Cine Teatro Mussi – trazendo o nome da firma proprietária, “Tecidos João Mussi S/A”, - década de 60; e Cine Mussi, década de 70, (já fiscalizado pelo Instituto Nacional do Cinema). Foto de Geraldo Cunha (Gê), arquivo pessoal de Valmir Guedes Jr..
O CINE TEATRO MUSSI (Segunda Parte)
Por Valmir Guedes Jr.
Há mais, muito mais para se escrever sobre o Cine-Teatro Mussi, e os cinemas e teatros da Laguna, em todas as épocas. Cada pessoa guarda suas próprias lembranças e particularidades. E os namoros? Cada turma, cada casal, tinha lá suas preferências por lugares no cinema. Uns ficavam à esquerda, lá na frente; outros à direita. Muita gente preferia sentar no meio da platéia. Já sabíamos decorado o lugar de cada um, mesmo sem numeração. Alguns procuravam as últimas cadeiras, no escurinho do mezanino, mas era muita bandeira e havia os "vaguistas". Sentar na platéia superior, então, era queimação de filme total. Depois era uma época em que pegar na mão da menina já era uma vitória. Mão naquilo e aquilo na mão era digno de comemorar com uma cerveja na lanchonete Vip’s. Aquilo naquilo, então, soltava-se foguetes, se é que me entendem. Eram outros os tempos evidentemente, e não tão longe assim, “apenas” uns trinta e cinco anos atrás. Mas Belchior já cantava, romanticamente:“Quero a sessão de cinema das cinco, pra beijar a menina e levar a saudade, na camisa toda suja de batom”.
Esta foto á constou em matéria do meu extinto jornal Tribuna Lagunense, em sua edição de nº 21, de 23/11/1996. Ela mostra dois personagens que durante muitos anos trabalharam no Cine Mussi. Fiz o registro dos dois, juntos, num domingo de visitas, no Asilo de Mendicidade Santa Isabel. Gilson Bittencourt, o Máquina Sete, e Bento P. Machado, o Bentinho, que estava visitando o amigo naquele fim de semana, e também se encontrava já doente. Com diferença de um dia, os dois logo faleceriam.Transcrevo abaixo, dois textos que publiquei em meu jornal à época, sobre o fato. O primeiro foi sobre o Gilson e o Lúcio, que se encontravam no Asilo na ocasião; o segundo texto fala sobre os falecimentos, pouco depois, de Gilson e Bentinho.
Assim caminha a humanidade
Antônio Gilson Bittencourt (Máquina Sete) e Lúcio Elói Martins.Duas vidas que se cruzaram no início de uma caminhada. Juntos trabalharam por longos anos com a magia da sétima arte. Não sob os holofotes da vaidade. Jamais expostos às luzes do sucesso. Nunca recebendo os aplausos da multidão. Ficavam nos bastidores. Lúcio encarregado da limpeza do prédio, palco de tantos acontecimentos. Gilson, como porteiro de um mundo mais fascinante, alegre e colorido aos nossos olhos de crianças e adolescentes. Gilson foi também lanterninha. UMA LUZ NA ESCURIDÃO, a guiar tantas gerações às poltronas desocupadas, como em busca de um futuro ansiosamente esperado. E ainda havia Waldemar Silva, o bagrinho, com sua lanterna implacável, afugentando namorados e como comissário de menores, fiscalizando o ingresso de quem não tinha ainda a idade permitida para assistir a película. Foram protagonistas de tantas histórias que ficaram guardadas na memória de tanta gente. Gilson me pergunta se na Laguna ainda existe cinema. -Não, Gilson, respondo: O SONHO ACABOU. Ainda lembra fatos ocorridos há mais de 20, 25 anos. Detalhes que passaram tantas vezes desapercebidos a uma adolescência pueril, onde não faltava o jeitinho para burla-lo na fiscalização a filmes vetados a menores de 14, 16 e 18 anos. Era um tempo de proibições, de saciar curiosidades, uma época de descobertas... Hoje o destino, mais uma vez os uniu. Despeço-me e saio do Asilo Santa Isabel em silêncio, envolvido numa atmosfera saudosista, recordando de outras cinemas, como o Central e o Roma. Sou despertado pelo repicar dos sinos da Igreja Nossa Senhora dos Navegantes e, lembrando o Gilson, o Lúcio e o Bentinho, que ficaram lá atrás sentados nos bancos do jardim do asilo, me pergunto intimamente: -Deus meu, por quem os sinos dobram?
Havia um tempo...
Noticiando os falecimentos dos dois, assim escrevi sobre Antônio G. Bittencourt e Bento P. Machado: “Máquina 7” era o porteiro de um mundo mágico que se abria ante nossos olhos deslumbrados, e Bentinho como “abridor” de cartazes com suas chamadas grandiosas que nos aguçavam o apetite a cada sessão. Foram tantos anos... Algumas poucas semanas antes dos desenlaces, Bentinho visitou o amigo de tantos anos, Gilson, no Asilo. Estando presente à ocasião, Bentinho pediu-me que tirasse um retrato dos dois para guardar de recordação. Realizei seu desejo e lhe entreguei uma cópia poucos dias depois, através de sua esposa. Lembro-me agora que, ao registrar a cena, olhando pelo visor da máquina, confesso que captei um ambiente que transpirava nostalgia, tristeza e onde os olhares, tenho certeza, já eram de viajantes que partiam com saudade”.
Valmir Guedes Jr.
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