Pedro Raimundo não teve vida fácil até seus 33 anos, quando optou por tocar sanfona como profissional contratado. Até então vagou por várias cidades como operário da estrada de ferro, porém jamais deixando de tocar sanfona. Para o catarinense do sul, naquela época, Porto Alegre sempre era a “querência”. E não foi diferente com Pedro Raimundo, antes de ir para o Rio de Janeiro. Teve uma passagem de algum tempo na capital gaúcha, tocando pelos bares e corredores do Mercado Municipal (que é o mesmo).
Um dia, ainda em Porto Alegre, resolveu formar um conjunto chamado Quarteto os Tauras(*). Esse quarteto chegou a ser contratado pela Rádio Farroupilha. Isto quer dizer que Pedro, como praiano de Imaruí foi tocar música gauchesca para os próprios gaúchos ! E aí mesmo que aceitou o codinome de “gaúcho alegre”. Entre 1942/43, passou a palmilhar o interior rio-grandense.
Depois dessa passagem pelo Rio Grande do Sul, finalmente intentou um “tiraço” maior: Rio de Janeiro. Antes de entrar para a Rádio Nacional teve uma breve passagem pela Rádio Tupi (dos Diários Associados). Almirante - chamado “A maior patente do rádio brasileiro” - um grande farejador de talentos da época, foi quem o convidou para os microfones mais famosos do Brasil: Rádio Nacional. Alí foi o ápice da sua carreira de artista original, como original era seu gênero na emissora, pois foi o primeiro e único sanfoneiro que por tanto tempo atuou na Nacional.
É de 1943 a composição - primeira de uma série - Adeus Mariana. Para compor o disco completo (78rpm), do outro lado gravou Tico tico no terreiro. Tanto durante sua estada no sul catarinense, no Rio grande do Sul e continuando no Rio, sempre se apresentou devidamente pilchado(**). Pedro passou pelo cinema por duas ocasiões: a primeira quando participou da película “Lua na estrada”, em 1949 e, a segunda, no filme “A natureza gaúcha”, em 1958. Entre 1943 e 1961, compôs e gravou: Adeus Mariana, Adeus moçada, Chico da Roda, Escadaria, Gaúcho largado, Magoas de amor, Meu coração te fala, Na casa do Zé Bedeu, Oriental, Prece, Sanfoninha, Velha amiga (última, já na inatividade profissional), Saudades de Laguna, Se Deus quiser, Tá tudo errado (a única composição que teve um parceiro, Jeová R. Portela) e Tico tico no terreiro.Comentam que Saudades de Laguna encerraria um segredo (que Pedro levou para o túmulo, sem confirmar nem desmentir), Quando morou em Laguna dizem que se apaixonara por uma jovem. Frustrado em seu intento pelos pais da moça, Pedro jamais a teria esquecido. Como não pudesse “homenagear” diretamente a moça, resolveu fazê-lo com a bela valsa, seguramente a melhor composição que fez (com dolente declamação): Saudades de Laguna!
(*) Denominação aos gaúchos errantes dos pampas rio-grandenses. (**) Traje característico (completo) do peão gaúcho.
Título de Cidadão Lagunense.
PEDRO RAIMUNDO (II)
Por Agilmar Machado
Moça lá de fora”… Uma das expressões usadas por Pedro Raimundo em uma de suas mais difundidas composições (Adeus Mariana) é muito pouco conhecida fora da campanha riograndense ou da região serrana. “Nasci cá na cidade e me casei na serra, com a minha Mariana, moça lá de fora…Um dia eu estranhei os carinhos dela e disse: adeus, Mariana que eu já vou-me embora…” A expressão é peculiar de quem tem grandes fazendas mas vive em suas casas, geralmente amplas e luxuosas, no centro das sedes municipais respectivas.
Quando desejam aludir a algo da fazenda dizem: lá fora. Foi por coisas como essa que Pedro acabou conhecido, desde o início de suas andanças por este Brasil imenso, por “Gaúcho alegre do rádio brasileiro”. Em palestra histórica feita junto ao parlamento estadual riograndense, em Porto Alegre (1992), o tradicionalista Paixão Cortes enfatizou a condição de ter sido o artista Pedro Raimundo o pioneiro em divulgação de músicas regionalistas em todo o país. Não é fácil um gaucho tradicionalista adimitir isso. Paixão Cortes, entretanto, ama o retrato fiel da história...
O sorriso do sanfoneiro
De certa forma com razão, pois Luiz Gonzaga, nordestino de Exú, Ceará, espelhado no sucesso de Pedro, apareceu com o seu “baião” no Rio e São Paulo e triunfou.Pois Pedro Raimundo foi mesmo o precursor brasileiro da música regionalista gaúcha no Brasil. Só depois de muitos anos viria Texeirinha. Só que o velho e querido Paixão Cortes extrapolou em sua paixão, “contabilizando” Pedro como “gaúcho”. É que o Rio Grande do Sul exerce um certo fascínio para os brasileiros em geral, pois até sua constituição (Farroupilha) tem diferenças da institucional nacional, no que cabe ao estado inserir… Assim, quando “carimbaram” Pedro como “o gaúcho alegre do rádio brasileiro”, ele nem negou e nem confirmou a alusão: deixou como estava para ver como ficava. Para quem nasceu, como ele, nas costas encharcadas da Lagoa do Imaruí, zona pobre e inexpressiva em termos de representatividade nacional, nesta altura tudo era lucro.
“Estagiou” no Rio Grande do Sul, como sanfoneiro errante, depois se firmando no conceito dos gaúchos em programas concorridos da Rádio Farroupilha. E ai veio a idéia de lançar a música campeira pelo Brasil: rancheiras, chotes, valsas e corridos. Do vanerão ainda não se falava, pois é filho mais novo do “pai” chote com a “mãe” rancheira.
E se mandou para o Rio de Janeiro, após um considerável período, sem nunca faltar em sua história os saraus e fandangos tocando bailes e domingueiras pelo sul catarinense, locomovendo-se pelo transporte mais usual à época: o cavalo. A sanfona ía na garupa, bem acomodada e protegida das intempéries, sob a capa-ponche que usava por absoluta necessidade de preservar aquela que lhe propiciava o ganha-pão. Pedro tinha que multiplicar sua capacidade de tirar sons da sua gaita companheira, pois ele tinha falta de um dedo exatamente na mão direita, a das teclas. E era o mindinho, o das notas altas… Viu a cidade maravilhosa quando o Cassino da Urca estava no auge; o Copacabana Palace era um monumento branco e nababesco incrustado nas areias brancas do Posto Seis. Para os “catarinas” a Cinelândia (Hotel Itajubáa, Espaguetelândia, etc.) era o ponto referencial, até porque logo no final da charmosa avenida ficava a Praça XV de Novembro (o cais do porto), onde majestoso apontava para o céu o edifício da imbatível Rádio Nacional do Rio de Janeiro (PRA-8).
Pedro era sobretudo popular. Jamais esqueceu seus amigos da origem. Certa feita, quando dirigia eu dois órgãos de imprensa em Cricíúma, ele me visitou, almoçou em minha casa e me contou muita coisa interessante (também era Maçom). Mostrou-me coisas muito suas, mas de imenso valor histórico neste momento. Um diploma, com merecidas referências à sua atuação na Rádio Nacional do Rio, firmado pelo vice-presidente da emissora, o mais famoso noticiarista de todos os tempos deste país, o gaúcho de São Gabriel, Herón Dominguez, o “Reporter Esso”. Outro documento de uma entidade a que pertencia, a Maçonaria, cuja loja ficava no bairro da Penha, no Rio. Tenho ainda à minha disposição, fotos de avantajado tamanho que Pedro remetia aos cinemas, clubes e teatros para os cartazes das salas de espera dessas casas de divertimento e lazer.
(Nosso agradecimento ao lagunista Agilmar Machado que prontamente nos atendeu quando solicitamos auxílio para compor uma seção sobre Pedro Raimundo e que, por coincidências da vida, está recebendo neste ano de 2009, título - merecido - de Cidadão Lagunense).
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