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Artigos da seção livre   PPG-LET-UFRGS – Porto Alegre – Vol. 03 N. 01 – jan/jun 2007


A canção popular brasileira e o

“Romance de 30”

Cimara Valim de Melo*

* Cimara Valim de Melo é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora da Rede Pública de Ensino do Rio Grande do Sul.


 Resumo:

“Romance de 30”, entrelaçando algumas produções literárias desse arbitrário período e canções populares brasileiras da mesma época. Para isso, além de contextualizar historicamente as décadas de 1930,
1940 e 1950, principalmente, escolheu-se um representativo vertentes sulina e nordestina. Não se pode negar que, na primeira metade do século XX, o Sul e o Nordeste acrescentaram significativamente cultura ao Brasil, descentralizando a arte do país e denunciando, muitas vezes, a precária situação do interior brasileiro em conseqüência do crescente império capitalista. Entre as múltiplas conexões possíveis, algumas são aqui analisadas, como a interação entre produções de Luiz Gonzaga e Graciliano Ramos; Dorival Caymmi e Jorge Amado; Barbosa Lessa, Pedro Raimundo e Cyro Martins. 

Palavras-chave: Literatura brasileira; “Romance de 30”; Canções populares brasileiras.


A música constitui, ao mesmo tempo, a manifestação imediata do instinto e a instância própria para o seu apaziguamento
(ADORNO, 2000, p. 43).

1 Introdução


As décadas que sucederam a Revolução de 30 foram palco de conflitos , de incertezas econômicas e sociais. Por outro lado, representaram culturalmente uma fortuna em termos literários e musicais. Nesse período, que percorre a saga política de Getúlio Vargas e chega aos anos de 1960, um grande número de escritores e cancionistas reuniram produções diversas e complementares, todas carregadas da consciência das condições em que o povo se encontrava nos mais variados locais do país. Um país rico e miserável, independente e curvado às grandes potências mundiais, representado por uma única bandeira e inúmeras identidades.

O Modernismo que explodiu em 1922, com a Semana de Arte Moderna, consolidouse, mesmo que em diferentes graus, como a expressão da consciência de um país decadente. O chamado neo-realismo - alimentado especialmente por descendentes da elite em crise que procuravam problematizar o mundo moderno através de seus personagens - não foi constante: apresentou tendências variadas quanto à relação entre narrador e personagens, à linguagem e ao comprometimento da literatura com a situação do país. Mesmo que desarticulada, a literatura das décadas subseqüentes à da Semana de Arte Moderna lançou-se ao amadurecimento da arte de pensar, à virilidade frente às contradições de um mudo complexo e
fragmentado. Restaram apenas os ecos da agitação artística juvenil da década de 20, que redimensionou a literatura brasileira.

Concomitante à literatura neo-realista, que, em geral, preferiu o espaço regional ao urbano, desenvolveu-se a ficção psicológica, realizada predominantemente no Rio de Janeiro por Lúcio Cardoso, Cornélio Pena, Otávio de Faria e Lygia Fagundes Telles. Incluem-se também nesse contexto Cyro dos Anjos, em Minas Gerais, e Dyonélio Machado, no Rio Grande do Sul. Essa vertente, entretanto, não será aqui foco de estudo, já que a análise se
centralizará nas vertentes regionais do Sul e do Nordeste do país e em seus pontos de contato com a música popular brasileira produzida no mesmo período.


2 Arte regional: um legado histórico


Quando falamos em “Romance de 30”, devemos observar a falta de um projeto unificador e a conseqüente diversidade literária do período, que corresponde ao que Antonio Candido chama de “tendência mais autêntica da arte e do pensamento brasileiro”(CANDIDO, 1976, p. 124). O enraizamento do Modernismo no Brasil é perceptível a partir de 1930, quando há o predomínio do romance de cunho social, vinculando explicitamente ficção e realidade:

A prosa, liberta e amadurecida, se desenvolve no romance e no conto, que vivem uma de suas quadras mais ricas. Romance fortemente marcado de neonaturalismo e de inspiração popular, visando aos dramas contidos em aspectos característicos do país: decadência da aristocracia rural e formação do proletariado (José Lins do Rego); poesia e luta do trabalhador (Jorge Amado, Amando Fontes); êxodo rural, cangaço(José Américo de Almeida, Rachel de Queiros, Graciliano Ramos); vida difícil das cidades em rápida transformação (Érico Veríssimo).
(CANDIDO, 1976, p. 123.)

A turbulência literária do decênio de 1930 foi fruto de um projeto ideológico que contrastou com o projeto estético modernista da época. Houve, com isso, a busca pela problematização regional, embora tenham surgido célebres romances localistas, como Porteira Fechada, de Cyro Martins; Fogo Morto, de José Lins do Rego e O Continente, de Érico Veríssimo. O contrário ocorreu com a canção popular brasileira, pois foi nesse período que grandes compositores, com canções de temática regional, como Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, Dorival Caymmi, Pedro Raimundo e Barbosa Lessa (este mais ao final da década), fizeram maior sucesso.





Durante o período do “Romance de 30”, contradições e crises da época embricaram-se à literatura e à canção, tornando-se parte do nosso legado histórico. Em 1930, enquanto Getúlio Vargas tomava posse com o apoio da burguesia e de militares ligados ao tenentismo, grandes mudanças ocorriam no país, desencadeando o crescimento das zonas urbanas, da industrialização e da burguesia, em detrimento do governo oligárquico da República Velha, o
qual privilegiava os grandes proprietários de terras. Noel Rosa, nesse ano, lançava Com que roupa, carregando em seu samba uma crítica explícita à pobreza do país, e, no campo literário, surgia O Quinze, de Rachel de Queirós.

Getúlio governou durante quinze anos, período no qual os chamados “romancistas de 30” tiveram significativa produção e a “Época de Ouro” da música brasileira vigorava. Em 1933, houve a oficialização dos desfiles de Carnaval pela prefeitura do Rio de Janeiro. Um ano antes, José Lins do Rego publicava terminava Menino de Engenho e, em 1934, Graciliano RamosSão Bernardo, mesmo ano em que Campo Fora, de Cyro Martins, era editado.

Getúlio governou durante quinze anos, período no qual os chamados “romancistas de 30” tiveram significativa produção e a “Época de Ouro” da música brasileira vigorava. Em 1933, houve a oficialização dos desfiles de Carnaval pela prefeitura do Rio de Janeiro. Um ano antes, José Lins do Rego publicava Menino de Engenho e, em 1934, Graciliano Ramos terminava São Bernardo, mesmo ano em que Campo Fora, de Cyro Martins, era editado.
Alfredo Bosi percebeu duas fortes tendências na ficção de 1930 a 1950
aproximadamente: a regionalista/social e a introspectiva (BOSI, 2000, p. 386). Embora não totalmente dissociadas uma da outra, suas diferenças residem no modo de abordagem dos conflitos, por parte do narrador e dos personagens, em seus espaços internos e externos. Exemplos da primeira não faltam: além dos já citados, em 1936, aos 24 anos, Jorge Amado publicava seu quinto romance, Mar Morto, com a participação de Dorival Caymmi como
compositor de canções presentes na história, como É doce morrer no mar. Cyro Martins escreveu Sem rumo, em 1937, às vésperas da implantação do governo ditatorial. Em 1938, um ano depois da morte de Noel Rosa, saía Vidas Secas, quarto romance de Graciliano Ramos. O livro trouxe um dos mais fortes retratos da subvida nordestina em períodos de estiagem no sertão, tema que Luiz Gonzaga abordaria em várias composições posteriores.

O início da II Guerra, em 1939, desviou a atenção de muitos artistas para a Europa, mas o Brasil continuou sendo fonte de manifestações artísticas. A “Época de Ouro” contou com a voz do já comentado Noel Rosa, que contribuiu imensamente com o samba; de Sinhô, popularizado pelos sambas, maxixes e marchinhas; de Lamartine, destaque com suas marchinhas de carnaval; de Ary Barroso, produtor do samba-exaltação, entre outros
cancionistas.


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