* Cimara Valim de Melo é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora da Rede Pública de Ensino do Rio Grande do Sul.
4 A vertente sulina
Tanto no romance quanto na canção, o Rio Grande do Sul teve memoráveis representantes que retrataram a cultura gaúcha e denunciaram precariedades da região, como o êxodo rural. A problematização aguda da miséria no campo acontece do início ao fim de Porteira Fechada, de Cyro Martins, desde a mudança da família Guedes da estância para a cidade até a morte do pai, acompanhada do esfacelamento das tradições e da “boa imagem” do gaúcho, formada pela sua honestidade e pelo trabalho de subsistência, com hábitos e recursos típicos do meio rural:
E João Guedes é expulso do seu pedaço de terra, atirado sem rumo na estrada, indo para os ranchos que cercam Boa Ventura, uma típica cidadezinha do interior. Ali ele vai sofrer um processo implacável de decadência material e moral que culmina com a prática do roubo, a morte por tuberculose duma das filhas, a perdição da outra. Um rosário de miséria, a débâcle total dum punhado de seres humanos. João Guedes e a sua família chegam ao último grau de desajustamento social. (FREITAS, 1986. p. 6-7)
Há forte tensão crítica entre o homem e o mundo, se utilizarmos os conceitos de Bosi, já que Guedes e Maria José resistem brutalmente à vida subumana que levam, a partir do dia que deixam as terras arrendadas, procurando de diversas formas saírem da miséria, porém, sem sucesso. A saudade da vida rural é amarga e o grotesco sofrimento supera o sentimentalismo. Sofrimento que o faz abandonar os princípios morais e roubar, encorajado pelo instinto de sobrevivência. O autor justifica os atos ilícitos do personagem com sua necessidade de lutar contra a dor, a humilhação da pobreza, a fome e a morte. Barbosa Lessa, em seu amplo projeto de resgate da cultura gaúcha, ameniza a tensão entre o homem e o mundo. Em Negrinho do Pastoreio, importa menos o tema do êxodo rural que a melodia da canção, passionalizada pelo ritmo da toada. Segundo Tatit (2002, p. 9-10), a tensão da continuidade melódica dá-se pelo prolongamento das vogais, “quando o cancionista não quer a ação, mas a paixão”, o que percebemos claramente nos versos cantados pelo Conjunto Farroupilha, na primeira versão surgida em 1950 e lançada em 1953:
Negrinho do Pastoreio (toada)
Negrinho do Pastoreio/ Acendo esta vela pra ti/ E peço que me devolvas/ A querência que eu perdi Negrinho do Pastoreio/ Traze a mim o meu rincão/ Eu te acendo esta velinha/ Nela está meu coração Quero rever o meu pago/ Coloreado de pitanga/ Quero ver a gauchinha/ A brincar n’água da sanga Quero trotear nas coxilhas/ Respirando a liberdade/ Que eu perdi naquele dia/ Em que me embretei na cidade Negrinho do Pastoreio/ Traze a mim o meu rincão/ A velinha está queimando/ Aquecendo a tradição (LESSA, 2001)
Há o resgate da lenda sulina, a qual auxilia no processo de passionalização por meio da metáfora existente na primeira estrofe, que destaca o sentimento de melancolia em virtude da “terra perdida”. O compositor detém-se menos no problema do êxodo e mais na exaltação regionalista da imagem rural, principalmente na segunda estrofe, quando enumera o que foi perdido com a migração. A tradição, que é aquecida nessa lírica composição, esfria-se em Porteira Fechada. O violino que acompanha a canção auxilia no tom de lamento e, em harmonia com os demais elementos, torna a toada carregada de tensões melódicas que, conforme Tatit, “aliviam as tensões do cotidiano e alimentam os conteúdos afetivos”. (2002, p. 16)
Outro compositor regionalista, Pedro Raimundo, embora tenha sido destaque como o “Gaúcho Alegre do Rádio” pela descontração e pela tematização de várias canções, produziu um significativo número de valsas e toadas românticas e saudosas. Em Saudade do Rincão, lançada em 1945, o tema de Porteira Fechada faz-se presente; entretanto, assim como em Negrinho do Pastoreio, é observada uma tensão mínima entre o “eu” e o mundo:
Saudade do Rincão (valsa)
Saudade, eu tenho saudade/ Do meu querido rincão/ Daquela moçada alegre/ Daquele povo tão bom Tenho saudades dos campos/ Das noites enluaradas/ Quando eu voltava dos bailes/Cantando pelas estradas Ai, ai, ai!/ Quanto sofre o meu coração/ Ai, ai, ai!/ Com saudade lá do rincão Saudade, eu tenho saudade/ De tudo que lá deixei/ Do meu querido rincão/ Nunca, nunca esquecerei Saudade da gauchinha/ Que me esperando ficou/ Na hora da despedida/ Me disse adeus e chorou Saudade do meu tordilho/ Cavalo bom e amigo/ Quando me achava com ele/ Não conhecia perigo Saudade da gauchada/ Saudade lá do galpão/ Saudade do bom churrasco/ E bombacha e chimarrão (RAIMUNDO, 2003)
Ainda mais que a toada de Barbosa Lessa, o sentimento transborda da valsa, embora sem a suavidade e o toque quase mítico daquela. A repetição dos motivos faz e desfaz a tensão melódica interna e a expressão do individualismo supera o teor social por meio da forte passionalização. A simplicidade dos versos chama a atenção, sem qualquer trabalho de linguagem ou inovação. O maior foco de tensão dá-se pela utilização do tom agudo no amento da estrofe “Ai, ai, ai”. Ela nos deixa a impressão de desespero, em vez da doce interpretação do Conjunto Farroupilha. Aquela é um desabafo do “eu”, enquanto esta explora o lirismo mais comedido. Todas as estrofes de Saudade do Rincão exaltam a vida rural, por meio da enumeração de elementos aos quais o enunciador não mais tem contato. Nas canções analisadas, percebem-se a narratividade e o regionalismo, mas não a intensidade ideológica existente no enfoque “regional” de Cyro Martins. A denúncia das crises política, social, econômica e cultural ofusca-se quando falamos na canção gauchesca da época, já que ela segue seus próprios rumos, agarrada à tradição em um momento de perda da identidade rural, além de avessa às inovações artísticas propagadas pelo projeto estético da década de 20.
5 A vertente nordestina
A tensão crítica apresenta-se na obra de Cyro Martins, mas Graciliano Ramos não deixa por menos, e pode ser considerado o mais feroz crítico dos “romancistas de 30”. Em Vidas Secas, de 1938, o movimento de fuga da família de Fabiano, que se retira de onde vive em busca de alimento, água e sobrevivência, diferencia-se da migração de João Guedes e sua família. Estes vão para a cidade e sobrevivem com a ajuda de algumas pessoas, mas estão sozinhos em um ambiente capitalista. Aqueles mal podem ser chamados de seres-humanos, vivem em um isolamento total, perambulam pelo sertão e acabam tomando o rumo da cidade. A precariedade da linguagem entre os membros da família de retirantes sugere a falta de vida, de cultura, e de estruturas básicas de sobrevivência, causando a sua desumanização e aproximando-os aos seres irracionais. O neo-realismo de Vidas Secas enriquece a narrativa social já construída em ficções como O Quinze, de Rachel de Queirós: Em “Vidas Secas”, o estilo peculiar de Graciliano Ramos, isto é, a concisão, precisão e sugestão dos vocábulos, chega à sua forma mais depurada: o vocábulo exato, a frase seca, curta, direta, revelam apenas o essencial. (...) Trata-se, realmente, de um retrato pungente do nordestino, o homem que nasce condenado às imposições da terra, a viver sob ameaça de um sol inclemente, condenado a viver à procura de regiões menos hostis, tendo, depois, que voltar para reiniciar sua valente luta sem interrupções. (MONTENEGRO, 1983. p. 17)
Presenciamos o tema da luta nordestina contra a seca nas canções do pernambucano Luiz Gonzaga. Compositor e sanfoneiro por ensinamentos do pai, Severino, fugiu de casa, no início da década de 1930, após uma briga familiar. A partir de então, estabeleceu contato com a música do centro-sul do país, apresentando-se em festas de subúrbios e casas noturnas. Começou a compor, na década de 1940, canções nordestinas e teve sucesso imediato. A mais famosa, Asa Branca (1947), foi gravada um ano depois de voltar à terra-natal, da qual ficou distante dezesseis anos. Juntamente a A Volta da Asa Branca (1950), Vozes da Seca (1953) e A Triste Partida (1964) - composição de Patativa do Assaré –, temos um rico manifesto do sertão feito pelo cancionista.
O saudosismo percebido em algumas letras dos compositores sulinos também é visível em canções de Gonzaga, como No Meu Pé de Serra, de 1946, e A vida do viajante, de 1953. Apesar de exaltar um universo cultural diferente, Gonzaga teve o incentivo musical de PedroRaimundo e algumas parcerias com Barbosa Lessa, gravando músicas do compositor gaúcho, fato que popularizou a música rural no território nacional. Um exemplo é Aroeira, de Barbosa Lessa, gravada em 1961 pelo sanfoneiro.
Asa Branca e A Volta da Asa Branca compõem a ligação umbilical entre o homem e a natureza vista em Vidas Secas, porém de forma menos agressiva que esta. Isso é possível devido à junção entre a tematização, marca dessa ligação material, e a passionalização, marca da emotividade do cantor:
O estilo mais intrigante e de maior fôlego, porém, veio formulado no baião-toada (como Asa Branca e Assum Preto, por exemplo), que abriga, em primeiro plano, a peculiar interação entre tematização e passionalização. (...) Enquanto a tematização-padrão vem determinada pelo /fazer/, a passionalização decorre do /ser/ . (...)
O texto de asa Branca traça o perfil da migração nordestina na experiência pessoal do enunciador:
a) avaliação do desastre produzido pela seca;
b) abandono forçado das terras do sertão, ocasionando a separação amorosa;
c) expectativa de volta e reintegração afetiva.( TATIT, 2002, p. 151)
A toada Asa Branca desfaz, em parte, a tensão crítica vista no romance, evocando a solidão, a tristeza, o amor e a paixão pela terra, juntamente à descrição da seca:
Asa Branca (toada)
Quando oiei a terra ardendo/ Com a fogueira de São João/ Eu perguntei a Deus do céu, ai/ Por que tamanha judiação Que braseiro, que fornaia/ Nem um pé de prantação/ Por farta d’água perdi meu gado/ Morreu de sede meu alazão Inté mesmo a asa branca/ Bateu asas do sertão/ Entonce eu disse, adeus Rosinha/ Guarda contigo meu coração Hoje longe muitas léguas/ Numa triste solidão/ Espero a chuva cair de novo/ Pra mim vortá pro meu sertão Quando o verde dos teus óio/ Se espaiá na prantação/ Eu te asseguro, num chore não, viu?/ Que eu vortarei, viu, meu coração (GONZAGA, 2001)
A Volta da Asa Branca (toada)
Já faz treis noite que pro norte relampeia/ A asa branca ouvindo o ronco do truvão/ Já bateu asas e vortô pru meu sertão/ Ai, ai, eu vou me imbora, vou cuidá da prantação A seca fez eu disertá da minha terra/ Mas filizmente Deus agora se alembrou/ I manda chuva pra esse sertão sofredor/ Sertão das mulher séria/ Dos homens trabalhador Rios correndo, as cachoeira tão zoando/ Terra moiada, mato verde, que riqueza/ E a asa branca tarde canta, que beleza,/ Ai, ai, o povo alegre, mais alegre a natureza Sentindo a chuva eu me arrecordo de Rosinha/ A linda frô do meu sertão pernambucano/ E se a safra num atrapaiá meus prano/ Ai, ô seu vigário, vou casa no fim do ano (GONZAGA, 1975)
A simplicidade do povo é percebida pela oralidade e pela isenção de preocupação formal. Gonzaga, em parceria com Humberto Teixeira, faz questão de transcrever a fala do sertanejo pobre, alheio à cultura letrada, o que não acontece no romance de Graciliano, pois a fala de cada personagem é filtrada pela voz do narrador. A letra, do mesmo modo que nas canções anteriores, carece de inovações e rupturas. É formada por estrofes com quatro versos, ontendo sempre o mesmo tipo de rima.
(Continue a leitura na página seguinte!)
Você sabe mais histórias sobre Pedro Raimundo? Tem fotos dele? Traga aqui para o site! Envie para o email coracional@bluewin.ch
Fazer a memória de uma cidade circular entre os seus cidadãos é fazê-la sobreviver ao tempo! Contribua você também!