Não querendo citar dados estatísticos, informou, todavia, que dos 379 9até abril de 1957) alunos diplomados pelo Ginásio, um número avultado continuou os seus estudos. Muitos são, hoje, médicos, engenheiros, advogados, oficiais da Marinha e do Exército, professores, dentistas, farmacêuticos, bancários, industriais, comerciantes; exercem na vida as mais diversas funções e, sempre com êxito. Relembrou as solenidades da formatura da primeira turma, citou os nomes dos seus componentes tal como figuravam nas relações de chamada, e a carreira que seguiram.
Normalista Telma Cidade de Souza, foto recebida de Tânia Rogéria de Souza.
Terminando a sua oração, disse o prof. Ruben Ulysséa: “ao encerrar esta minha exposição, desejo testemunhar a gratidão dos professoras e alunos do Ginásio a todos aqueles que, através destes longos anos nos têm animado com palavras de estímulo, nos têm amparado com a sua solidariedade, nos têm ajudado desinteressadamente. Aconselha-me a prudência a não citar nomes, pelo risco das omissões. E desejo endereçar aos nossos antigos alunos, aos presentes como aqueles que se encontram distantes, a mensagem da nossa ternura e da nossa simpatia, da nossa confiança nos seus claros destinos, da nossa certeza de que continuarão a honrar, pelo seu estudo, pelo seu trabalho e pela sua conduta, esta velha escola por onde passaram.
Normalista Maria Salete Cidade do Nascimento, foto recebida de Tânia Rogéria de Souza.
GINÁSIO LAGUNENSE: LAICIDADE E CO-EDUCAÇÃO (1932-1945)1
Norberto Dallabrida2 Fernando Leocino da Silva3 Letícia Cortellazzi Garcia4
Na década de 1930 houve expansão significativa do ensino secundário em Santa Catarina, quando foram criados e equiparados sete novos cursos nesse nível de escolarização. Nos primeiros decênios do século XX, havia somente o Ginásio Catarinense, localizado na capital catarinense, dirigidos pelos padres jesuítas, de caráter privado e oficializado de acordo com a legislação vigente e o padrão nacional do Colégio Pedro II. Devido ao seu caráter privado e à sua seletividade, tratava-se de uma instituição formal das elites. O monopólio jesuítico do ensino secundário no território catarinense foi quebrado com a criação de novos colégios, localizados nas principais cidades do interior do Estado de Santa Catarina. Houve crescimento expressivo de estabelecimentos de ensino secundário, mas nenhum deles tinha caráter público estadual.
Dr. Antonio Dib Mussi, Professor.
Além de ser criado e mantido parcialmente pela Prefeitura de Laguna, o que lhe dava um caráter semi-público municipal, o Ginásio Lagunense diferenciou-se dos outros colégios de ensino secundário em Santa Catarina, nas décadas de 30 e 40 do século XX, devido à laicidade de seu currículo e ao seu regime de co-educação. Nesse momento, a maioria dos ginásios no território catarinense eram dirigidos por congregações católicas como os jesuítas, os franciscanos, os Irmãos Maristas e as Irmãs da Divina Providência e, por isso, contemplavam a disciplina Ensino Religioso no seu currículo e colocavam em marcha no cotidiano escolar dispositivos disciplinares de corte cristão. Nesse momento histórico, o Ginásio Lagunense era também um dos três ginásios catarinenses que proporcionavam escolarização secundária para classes mistas.
Mauro Pinho Gomes
O presente trabalho procura compreender esses dois aspectos da cultura escolar do Ginásio Lagunense, desde a sua fundação, realizada em 1932, até meados da década de 1940, quando, com a fundação do Ginásio Sagrado Coração de Jesus, em Tubarão, ele deixou de ser o único estabelecimento de ensino secundário no Sul de Santa Catarina. Para o entendimento da cultura escolar, são considerados os trabalhos que percebem o currículo escolar como um artefato cultural e histórico, inventado e reinventado ao longo da história, a partir de tensões e concessões provisórias entre proposições cognitivas entranhadas de relações de poder.5 Essa pesquisa baseia-se em fontes escritas, como documentos avulsos e os jornais “O Albor” e “Sul do Estado”, ambos de Laguna, bem como em entrevistas com alunos egressos do Ginásio Lagunense, lidas a partir de suas condições sociais de produção.
Nilton Baptista da Silva
Cultura escolar laica
Em 29 de junho de 1935, o diretor do Ginásio Lagunense, major Manuel Grott, escreveu uma nota de esclarecimento no jornal “O Albor”, editado em Laguna, que inicia da seguinte forma: “O ´Ginásio Lagunense´ é uma instituição leiga. Assim que, dentro de seu perímetro, nunca pregou nem pró nem contra qualquer credo religioso, respeitando, todavia, a crença, seja qual for, do seu corpo docente e discente”. A “explicação necessária” – como diz o título da nota – dada pelo diretor foi motivada por reclamações feitas por alguns pais de alunos que não professavam a religião católica e afirmaram que os ginasianos foram obrigados a participar da procissão de “Corpus Christi”. Ele garantiu que os estudantes do Ginásio Lagunense somente foram obrigados a participar da “formatura” determinada pela direção do ginásio, concluindo: “O `Ginásio Lagunense` não impôs, não impõe, nem imporá culto religioso a quem quer que seja. Apenas ensina absoluto respeito à crença de outrem. [...] A tolerância e respeito são apanágio das consciências bem formadas e dos espíritos bem formados”.6
Pery Pinho Grunner
A laicidade do Ginásio Lagunense pode ser constatada em relação aos conteúdos culturais que ele selecionava e organizava para os seus alunos. No rol das “disciplinas-saber” do colégio, não constava Ensino Religioso, que efetivamente não era ministrado em nenhuma série do seu curso secundário. A disciplina Ensino Religioso havia sido reintroduzida no sistema escolar público em 1931 e foi mantida na Constituição de 1934. Em Santa Catarina, baseado na nova Carta Magna, o governador Nereu Ramos assinou o Decreto Nº 64, de 9 de agosto de 1935, que reintroduziu o Ensino Religioso, com freqüência facultativa, no “horário escolar” das escolas de ensino primário, secundário, profissional e normal do território catarinense. O artigo 7º desse decreto afirma que “aos estabelecimentos de ensino particulares equiparados é facultado ministrar apenas a instrução religiosa consetânea com a sua orientação”, numa referência aos colégios de ensino secundário confessionais equiparados ao Colégio Pedro II do Rio de Janeiro.7
Ruy Marques
Apesar de a maioria dos estabelecimentos de ensino secundário catarinenses serem confessionais e contemplar saberes cristãos nos seus currículos, o Ginásio Lagunense não implantou a disciplina Ensino Religioso, mantendo a sua tradição laica. Esse aspecto da cultura escolar do Ginásio Lagunense deveu-se ao fato de boa parte de seu corpo diretivo e docente ser formado por profissionais liberais e/ou sem vinculação religiosa. O primeiro diretor do colégio, major Manuel Grott, era militar reformado e defendia a laicidade do ensino ginasial – como foi assinalado acima. O professor Germano Donner, que dirigiu o Ginásio Lagunense entre 1939 e meados da década de 1950 e marcou época, tinha pertencido ao Exército Brasileiro, envolveu-se na Revolta do Forte de Copacabana de 1922 e na Revolução de 30, pertenceu à Comissão Executiva da Aliança Nacional Libertadora de Florianópolis e, posteriormente, ingressou no Partido Comunista Brasileiro.8
Ruben Ulysséa, Professor
Por outro lado, os atos religiosos, especialmente aqueles promovidos pela Igreja Católica, que predominavam na sociedade brasileira e em Laguna, não foram apropriados pelo corpo dirigente e docente do Ginásio Lagunense como mecanismos de disciplinamento escolar.
Hyran Pires da Silva
Assim, congregações marianas, devoções, missas, confissões, festas de santos, procissões, entre outras, comuns nos colégios católicos, não tiveram espaço no colégio de Laguna. Nos depoimentos de ex-alunos do Ginásio Lagunense, todos são unânimes em torno da ausência de traços religiosos, especialmente católicos, no currículo desse educandário. Eles relatam que não tem nenhuma lembrança de que festas religiosas tivessem sido realizadas na sua época de ginásio, com exceção da missa de formatura, uma concessão num momento ímpar de congraçamento, que envolvia familiares e amigos dos bacharelandos. Os feriados católicos somente eram observados quando oficializados pelos poderes públicos e comunicados devidamente aos pais dos alunos, como se pode verificar na seguinte nota publicada no jornal “O Albor”: “Segundo determinações do Departamento de Ensino, os últimos dias da Semana Santa foram declarados feriado tendo-se fechado, portanto, os estabelecimentos equiparados por cumprirem essa deliberação superior”.9
Elsa Cabral Pinho
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