As festas escolares também não contemplavam os credos religiosos, mas davam visibilidade ao patriotismo e ao republicanismo. A data da emancipação política do Brasil – o 7 de setembro – era espetacularizada com a marcha pelas ruas da cidade e parada de corte militar na praça da bandeira pelos estudantes do Ginásio Lagunense, bem como por alunos dos grupos escolares e de outras escolas de Laguna. Durante o Estado Novo, as chamadas festas cívicas ganharam ainda mais relevo no Ginásio Lagunense. No entanto, nesse período, o destaque foram as comemorações do centenário da República Juliana, que se realizaram em Laguna no ano de 1939. Em 21 de julho desse ano, uma sessão especial no Ginásio Lagunense deu início às comemorações da instalação da República Juliana – realizada em Laguna, pelos revolucionários farroupilhas –, que se desdobraram nos dias seguintes na cidade de Anita Garibaldi.
Abelardo M. Martins Alcantara
Regime de co-educação
Para compreender a prática de co-educação no Ginásio Lagunense nas décadas de 30 e 40 do século XX, os estudos de gênero são de grande valia, pelo fato de mostrarem a construção histórica da exclusão social das mulheres, que contou com a atuação efetiva de escolas e, particularmente, de colégios de ensino secundário. Entende-se que as instituições escolares contribuem para a construção da desigualdade de gênero por meio de diversificados dispositivos curriculares. Os processos de escolarização moderna no Ocidente, inicialmente promovidos pela igrejas cristãs em concorrência e depois apropriados e implementados pelo Estado, foram transversalizados pelo viés de gênero e contribuíram, até bem pouco tempo, para dividir meninos e meninas.10 Grosso modo, até a década de 1960, boa parte dos colégios de ensino secundário eram divididos pelo critério de gênero, sendo a maioria destinada aos adolescentes homens, com o intuito de prepará-los para ingressar nas instituições de ensino superior e atuar na vida pública.
Alberto Crippa
A partir da década de 1930, a rede de colégios católicos intensificou a escolarização em nível secundário exclusiva para cada gênero, seguindo as orientações da Encíclica “Divini Illius Magistri” – publicada por Pio XI em 31 de dezembro de 1929 –, que condenava a co-educação. A maioria dos ginásios católicos era dirigida por religiosos do sexo masculino, sendo freqüentados somente por filhos homens das classes abastadas. A partir de 1935, o Colégio Coração de Jesus, dirigido pelas Irmãs da Divina Providência e localizado na capital catarinense, passou a oferecer um curso ginasial exclusivo para moças e, posteriormente, essa congregação católica estabeleceu outros colégios congêneres em várias cidades do Estado de Santa Catarina.11 Desta forma, somente o Instituto Bom Jesus e os ginásios Lagunense e Barão de Antonina praticavam a educação mista, incluindo as adolescentes no ensino secundário.
Angelo M. Crema
O painel esculpido em madeira da primeira turma de bacharéis do Ginásio Lagunense, afixado na atual Escola de Ensino Médio Almirante Lamego, em Laguna, relaciona apenas uma aluna, Elza Cabral Pinho. Ela não participou da sessão de formatura, realizada em 27 de novembro de 1937, porque “ficou de segunda época” por um décimo em uma disciplina que atualmente lhe escapa da memória. No início do ano seguinte, ela realizou o exame de recuperação e foi aprovada, passando a ter a condição de bacharel.12 A segunda turma de formandos do Ginásio Lagunense também teve somente uma aluna, mas nas turmas posteriores de concluintes, o número de bacharéis-ginasianas cresceu de forma significativa. Nas turmas de formandos entre os anos de 1937 e 1945 os alunos totalizam 128, enquanto as alunas somavam 48, de forma que as mulheres representaram mais de um terço entre os formados do Ginásio Lagunense, o que indica expressiva inserção do gênero feminino.13 A inclusão de adolescentes mulheres no Ginásio Lagunense deve-se ao fato de boa parte de seu corpo diretivo e docente ser formado por profissionais liberais e/ou laicos.
Bruno Schelemper
No entanto, a co-educação no Ginásio Lagunense apresentava limites nas práticas educativas cotidianas. Em primeiro lugar, constata-se que os espaços escolares eram “generificados”: nas salas de aula as alunas sentavam de um lado e os alunos de outro e no pátio também havia locais específicos para os dois gêneros. Nazle Paulo Corrêa integrou a turma de formandos de 1942 e afirma que quando estudou no Ginásio Lagunense os alunos ficavam do lado direito e as alunas sentavam no lado esquerdo, de forma que “as meninas sentavam com as meninas e os meninos com dos meninos”.14 As carteiras ainda não eram individuais e cada uma comportava dois/duas alunos/as, que deveriam ser necessariamente do mesmo sexo. A ex-aluna Ana Maria Pimentel Carioni recorda que “na hora do recreio, os rapazes tinham uma brincadeira mais estúpida ... futebol, essa coisa toda. Então era separado [...] aquilo já estava implícito, que aquele lado, aquela parte lá era dos rapazes e de cá era das meninas”.15
Claudio Johany Tasso
O uniforme escolar existiu desde a fundação do Ginásio Lagunense, sendo bem diferenciado para meninos/moços e meninas/moças. No início de 1940, o diretor Germano Donner definiu um “novo plano de uniformes”, que compreendia uniforme de passeio, de uso diário e para Educação Física, segundo a padronização do Ministério da Educação e Saúde. O fardamento do uniforme de uso diário tinha constituição diferenciada para os alunos do sexo feminino e masculino: para os ginasianos prescrevia-se calça de brim cáqui, túnica de brim cáqui, camisa branca com colarinho, gravata preta e “sweater” de lã; e para as ginasianas a indumentária previa saia de merinò de algodão azul marinho, blusa de tricoline de algodão branca e “pull-over” de lã. O uniforme para as aulas de Educação Física também era bem diferenciado: os alunos deveriam usar calção preto com cinto, camiseta de malha de algodão branca e calçado; as alunas deveriam apresentar-se de calção de merinò preto, blusa de tricoline branca e calçado.16
Custodia Brasiliense
As aulas de Educação Física eram separadas, tendo espaços específicos e exercícios exclusivos para cada gênero. Os depoimentos dos egressos do Ginásio Lagunense sublinham a separação dos alunos e das alunas nas aulas de Educação, sendo ministradas por um sargento do Exército, que também atuava no Tiro de Guerra de Laguna.17 Solange Donner Pirajá Martins, que se formou no curso ginasial em 1946, recorda que as aulas de Educação Física eram separadas e realizadas fora do terreno do Ginásio Lagunense, pelo fato de o pátio do mesmo ser pequeno e não ter espaço adequado para os exercícios físicos. Na sua época, as alunas tinham aulas de Educação Física no pátio do Grupo Escolar Jerônimo Coelho, que se localizava no centro de Laguna.18 Nazle Paulo Corrêa relata que nas aulas de Educação Física das meninas não se praticavam jogos como nos dias de hoje, mas restringia-se a “exercícios básicos”, correr, pular corda.19 Ademais, alguns esportes coletivos como futebol e basquetebol eram praticados somente pelos adolescentes homens.
Branca Ulysséa
Em relação ao corpo dirigente e docente, pode-se perceber o predomínio de homens e a presença minoritária e intermitente de mulheres. Nas duas primeiras décadas de funcionamento, o Ginásio Lagunense foi dirigido por quatro diretores e os dois que ficaram a maior parte do tempo eram ex-militares. Trata-se do Major Manuel Grott, que instituiu o Ginásio Lagunense e dirigiu-o até 1938, e o capitão Germano Donner, que assumiu a direção no ano seguinte. No tocante à questão do desequilíbrio de gênero, pode-se apontar o número reduzido de alunas nas turmas de formandos do Ginásio Lagunense. Nas salas de aula as mulheres formavam geralmente um número pequeno e os homens sempre eram maioria, que, somados aos professores, imprimiam uma ordem masculinista ao colégio.
Dr. Joaquim Cabral, Professor
Enfim, nas décadas de 30 e 40 do século XX, quando predominavam no Brasil e, particularmente, em Santa Catarina os colégios católicos, que ofereciam escolarização média exclusiva para cada gênero, o Ginásio Lagunense sustentou a laicidade no seu currículo escolar e contemplou a prática da educação mista, proporcionando o curso fundamental do ensino secundário a um grupo significativo de adolescentes mulheres. A leitura histórica dessa experiência escolar é relevante para as discussões contemporâneas sobre a educação, na medida em que pode contribuir para a construção de práticas escolares mais democráticas, que procurem tonificar o regime republicano, excluir a desigualdade e respeitar diferenças.
Dr. Oscar Leitão, Professor
1 Este texto é resultado parcial da pesquisa “O Ginásio Lagunense e a produção de sujeitos letrados e laicos – 1932-1942”, coordenada por Norberto Dallabrida e executada com recursos da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). 2 Doutor em História Social pela USP e professor do Departamento de História da UDESC. 3 Aluno do Curso de História da UDESC e bolsista PIBIC/CNPq. 4 Aluna do Curso de História da UDESC e bolsista PIBIC/CNPq. 5 Sobre cultura escolar, ver JULIA, Dominique. A cultura escolar como objeto histórico. Revista Brasileira de História da Educação. Campinas, nº 1, p.9-43, 2001. GOODSON, Ivor F. Currículo: teoria e história. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995. (Ciências Sociais da Educação). 6 GROTT, Manoel. Ginásio Lagunense, uma explicação necessária. O Albor-Órgão dos interesses do sul do Estado, nº 1606, 29.jun.1935, p.3. 7 RAMOS, Nereu. Decreto Nº 64, de 9 de agosto de 1935. In: SANTA CATARINA. DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO. Educação Popular: movimento do ano letivo de 1935. Florianópolis: Imprensa Oficial, 1935. p.46-53. 8 DONNER, Germano. Biografia. Laguna, 15.jun.1954. p.1-2. MARTINS, Celso. Os Comunas: Álvaro Ventura e o PCB Catarinense. Florianópolis: Paralelo 27; Fundação Franklin Cascaes, 1995. p.100-103. 9 AMOR ao Estudo. Apelo ao Ginásio. O Albor-Órgão dos interesses do sul do Estado. Laguna, nº 1596, 19.abr.1935. p.4. 10 Sobre a questão de gênero e educação, ver LOURO, Guacira Lopes. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. VARELA, Julia. Nascimiento de la mujer burguesa: el cambiante desequilibrio de pode entre los sexos. Madrid: La Piqueta, 1997. (Genealogía del poder, 30) 11 ENSINO Secundário. In: SANTA CATARINA. DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO. Educação Popular: o movimento letivo de 1935. Florianópolis: Imprensa Oficial, 1936. p.53. 12 VARELA, Elza Pinho. Entrevista concedida a Norberto Dallabrida. Curitiba, 29.jul.2004. p.9-14. 13 TURMAS que terminaram o Ginásio Lagunene – 1937-1955. Laguna, s.d. Mimeografado 14 CORRÊA, Nazle Paulo. Entrevista concedida a Norberto Dallabrida. Florianópolis, 5.ago.2004. p.6-7. 15 CARIONI, Ana Maria Pimentel. Entrevista concedida a Norberto Dallabrida. Florianópolis, 12.mar.2004. p.8-9. 16 DONNER, Germano. Ginásio Lagunense. Plano de uniformes. Sul do Estado. Laguna, 23.fev.1940, p.2-3. 17 BESSA, José. Entrevista concedida a Norberto Dallabrida. Florianópolis, 09.mar.2004. p.6-7. 18 MARTINS, Solange Donner Pirajá. Entrevista concedida a Norberto Dallabrida. Florianópolis, 30.mar.2004. p.15 19 CORRÊA, Nazle Paulo. Entrevista concedida a Norberto Dallabrida. Florianópolis, 5.ago.2004. p.8.
*Norberto Dallabrida possui graduação em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (1988), graduação em Pedagogia pela Universidade do Estado de Santa Catarina (1984), mestrado em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (1993) e doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (2001). Atualmente é professor concursado (efetivo) na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Tem experiência na área de Educação, com ênfase em História da Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: Ensino Secundário em Santa Catarina durante o século XX e Historiografia da Educação.
Dr. Paulo Carneiro, Professor
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