Observação: A matéria aqui publicada foi extraída do livro “A Trajetória da Enfermagem na Cidade de Laguna” (de autoria das enfermeiras Cinthya Ferreira Corrêa Vieira, Maria Heloísa Fernandes e Regina Ramos dos Santos) especificamente do capítulo “Lutas e vitórias da Enfermagem durante os 150 anos do Hospital de Laguna”, escrito pela enfermeira Cinthya e recebido de Regina Ramos dos Santos.
"Hospital de Perfil". Foto de Maria de Fátima Barreto Michels.
Em 1913, por insistência da Irmandade Senhor Bom Jesus dos Passos, as Irmãs da Congregação da Divina Providência assumiram a direção interna do Hospital. A alimentação era quase toda produzida por elas - criavam suínos e aves e plantavam verduras e legumes. Naturalmente, estas atividades, além do atendimento de enfermagem, muito favoreceram a economia do estabelecimento e o acesso de número ainda maior de doentes. Somente nesta época é que foi instalada luz elétrica na casa. Pelos anos de 1914/15, Dr. Aurélio Rótolo (pai) passou a atender no hospital. Em 1918, a cidade foi atingida pela “gripe espanhola” – registrados cerca de 3 mil casos, com 130 óbitos. Como o Hospital não tinha condições de atender a toda esta demanda, diversas entidades resolveram ajudar nos trabalhos de assistência às vítimas, notadamente a Loja Maçônica Fraternidade Lagunense e a primeira Escola de Escotismo de Laguna, chefiada por Renê Rollin, que viria a morrer vitimado pela gripe.
Sr. Antônio Teixeira, por muitos anos administrador do Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus dos Passos. Foto cedida por Antonio C. Marega e enviada por Regina Ramos dos Santos.
O número sempre crescente de indigentes provenientes de todo o Sul do Estado, atendidos gratuitamente, acabou sobrecarregando de tal maneira o orçamento do Hospital, que a situação se tornou insustentável. Nos anos 20, as dificuldades chegaram a tal ponto, que a Diretoria apelou ao Estado, pedindo urgente auxílio para não ter que fechar as portas. O Estado aceitou o pedido, em troca do direito de nomear a comissão administrativa, o que aconteceu durante muitos anos. Nos primeiros 50 anos do Século XX, a instituição pouco progrediu. As instalações internas eram muito deficientes. Basta lembrar que, em 1950, ainda não havia água encanada nos quartos. Em 1930, Dr. Aurélio Rótolo pediu demissão, sendo substituído pelo Dr. Osvaldo Espíndola. Desde 1931, era Dr. Paulo Carneiro o médico do Hospital. Em 1945, é a vez do pediatra Dr. Pedro Advíncula Torres de Miranda ser admitido. Em 1951, Dr. Aurélio Pinho Rótolo iniciou suas atividades. Neste mesmo ano, a Diretoria fez veemente apelo à Prefeitura, solicitando a subvenção que não era paga há três anos
Vista do centro da cidade, ao fundo o Hospital de Laguna. Foto de Dr. Hayesboh.
Em 1954, foi melhorada a Lavanderia, com a aquisição de uma máquina de lavar roupas e, em 1955, é inaugurada a Maternidade. Com 10 quartos, seu movimento permitiu a aquisição, em 1956, de mais duas máquinas de lavar e de uma incubadora. Em 1959, é inaugurada a atual capela. Em 1960, Dr. Aurélio arrendou ao Hospital seu aparelho de Raios-X – mais tarde, a aparelhagem foi adquirida pela instituição. Em 1961, Antônio Sebastião Teixeira e Adelino Waterkemper passaram a integrar a diretoria. Profunda cisterna foi construída e, em 1963, é adquirido gerador de luz. Em 1968, foi inaugurada a ala direita do Hospital, com três pavimentos. Antônio Teixeira e a Irmã Adriana muito se empenharam para o êxito do empreendimento. As demais alas do prédio atual, incluindo o anexo, também com cinco andares, somente seriam inauguradas nos anos 80, sempre sob a coordenação do Sr. Teixeira. Em 1979, as Irmãs da Congregação da Divina Providência são retiradas. Em seu lugar, assumem as Irmãs da Associação da Fraternidade e Esperança, que ali permaneceram até 1983. Em 1985, vieram as Irmãs Salvatorianas, que sairiam em 1991, assumindo a direção a própria Irmandade. Em 2003, por determinação do Ministério Público, através de termo de ajustamento de conduta, o Hospital foi transformado em associação, passando a ser administrado por comissão formada por associados contribuintes e natos (representantes da Irmandade, Prefeitura, Câmara de Vereadores e Secretaria de Estado de Desenvolvimento Regional), modelo de gestão ainda vigente.
Hoje: Componentes da Associação de Voluntárias "Mamãe Bebê", criada especialmente para auxiliar os trabalhos da Maternidade. A Maternidade agora se chama "Ludnira Fonseca Carneiro", justamente por iniciativa do grupo. Foto e comentários recebidos de Regina Ramos dos Santos.
A Irmandade Senhor Bom Jesus dos Passos teve papel decisivo na construção do hospital. A participação do Tenente-Coronel Joaquim Pinto D’Ulysséa, do professor e jornalista Prezalino Lery Santos e do juiz municipal Francisco Izidro Rodrigues da Costa foi de fundamental importância. Diversas propriedades de Laguna e região, pertencentes à Irmandade, foram vendidas em prol da construção, assim como os lucros provenientes das festividades em honra ao Senhor dos Passos. Como a instituição era praticamente mantida pela Irmandade, foi solicitada ao Governo da Província a troca do nome do hospital, o que foi aprovado pela Lei No. 1.017, de 10/05/1883. A pedra fundamental do hospital a ser construído no Morro da Figueirinha foi colocada em 08/09/1879. A cerimônia, que deveria ter sido realizada na véspera, foi transferida em função do mau tempo. O vigário da Paróquia Santo Antônio, Manoel João Luiz da Silva, oficializou a bênção. A pedra foi colocada no ângulo sul, juntamente com uma caixa de madeira contendo outra de zinco, onde foram depositadas cópias da ata da solenidade e dos discursos das autoridades, exemplares dos jornais “O Município” e “A Verdade” e moedas de diversos valores. Somente em 07/09/1884, a direção do hospital recebeu as chaves de parte do edifício. A bênção da capela e da ala sul foi ministrada pelo vigário de Jaguaruna, Pe. Miguel Pizzio, já que o de Laguna estava ausente. No dia seguinte, efetuou-se a transferência dos doentes do velho prédio alugado para a nova construção. A ala inaugurada tinha uma enfermaria com 10 leitos e mais 05 quartos.
Hoje: Solenidade de entrega de donativo pelo Lions Club Laguna ao Hospital de Caridade Senhor Bom Jesus dos Passos. Foto recebida de Regina Ramos dos Santos.
Antes disso, por volta de 1882, o Hospital São Francisco de Assis teve que enfrentar epidemia de varíola. O governo provincial propôs o pagamento de 4 mil réis por doente tratado. O farmacêutico Manoel Gonçalves da Costa Barreiros, que fazia as vezes de médico, aceitou tratar dos variolosos, desde que “os lucros fossem divididos em duas partes iguais, uma para ele e outra para o hospital”. A proposta foi aceita e em três meses a epidemia foi extinta. Em outubro/1883, o médico Luiz França Carlos da Fonseca foi contratado. Em janeiro/1855, já no novo prédio, grupo de senhoras promoveu bazar beneficente para dourar a capela. Em abril, o provedor comunicou que, há dois anos, o governo provincial não pagava a subvenção devida ao hospital. Por conta disso, a capacidade de atendimento foi reduzida a três ou quatro doentes. No mesmo mês, foi demitido o procurador da comissão, João José de Andrade, “porque se negou a tomar as providências para enterramento de um homem falecido no hospital”, o que era sua obrigação. Em 06/08/1885, após autorização do bispo do Rio de Janeiro, a quem a Paróquia de Laguna estava subordinada, a imagem do Senhor dos Passos foi transferida para a capela do hospital.
Hoje: Estagiários da Turma I do Curso Técnico de Enfermagem do Centro Educacional Evolução do Saber. Da esquerda para a direita: André, Valmor, Adriana, Supervisora de estágio Enf. Cintia Alves, Marcelo. Foto e comentários recebidos de Valmor Soares Jr.
Em janeiro/1887, para atrair mais doentes, a comissão baixou as diárias de três para dois mil réis. Em julho, como os recursos eram escassos, foi reduzida a capacidade de atendimento para dois doentes e baixados os ordenados. Em março/1888, após pedido de demissão do Dr. Rego Barros, Dr. Ismael Pinto Ulysséa aceitou o cargo de médico do hospital. A ala norte só foi inaugurada em 1903, com as mesmas dimensões e capacidade da ala sul, ocupada desde 1884. A ala norte (que, do prédio antigo, é a única que ainda existe), ficou reservada às mulheres e a sul, aos homens. A dedicação e esforço da Irmandade Senhor Bom Jesus dos Passos são recordados com admiração e gratidão, durante estes anos difíceis. A entidade desfazia-se dos bens que a devoção do povo legava ao Senhor dos Passos e empregava os valores apurados na manutenção da instituição e atendimento aos indigentes.
Hoje: Estágiarios da Turma I do Curso Técnico de Enfermagem do Centro Educacional Evolução do Saber.Da esquerda para a direita: Supervisora de estágio Enf. Germania Pinheiro, Lucimar e Giseli, sentado: Valmor. Foto e comentários recebidos de Valmor Soares Jr.
Um dos quartos da ala psiquiátrica.
Quarto da ala psiquiátrica São Francisco de Assis.
Refeitório da ala psiquiátrica São Francisco de Assis.
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