Eu caminhava, a pé, pela rua Raulino Horn (rua Direita, para os mais velhos) quando o carro estacionou ao meu lado, com duas mulheres em seu interior, mãe e filha, possivelmente. A mais velha pediu informações: ___ O senhor conhece a Miscelânia? Uma sorveteria, que servia um sorvete artesanal inigualável? Diante de minha hesitação, ela insistiu: __ Não existe mais? ___ Infelizmente, respondi, a Miscelânia, que ficava logo ali, apontei, onde hoje é o calçadão, já fechou há muito tempo. A mulher agradeceu e partiu, mas eu pude observar em seu semblante, uma ruguinha de decepção. Com certeza, a Miscelânia, estava ligada a saudade de alguma coisa boa, em sua mocidade, além do sorvete, é claro. Não tive tempo de lhe dizer que a senhora Alda Crippa uma das proprietárias da sorveteria Miscelânia, continua viva e morando aqui, na terrinha. O carro tinha placa da cidade de Antonina (PR). Na quadra da Miscelânia (calçadão) tínhamos o Café Tupy, Relojoaria Werner, Salão do Zé barbeiro, sinuca do Nono, lavanderia do Noé, Alfaiataria do Aladin, Conserto de bicicletas, do Pingüim, engraxataria, banca de revistas, etc. Nas tardes de domingo, ao redor de taças de vidro, com duas bolas do melhor sorvete artesanal da região, casais de namorados curtiam felizes e despreocupados, os bons momentos dos melhores anos de suas vidas. A Miscelânia marcou época. Além do sorvete, como esquecer da bala pipper e da gasosa do Grunner?
Rua da antiga Miscelânea. Foto de novembro de 2007. Você tem uma foto da Miscelânea? Mande pra gente! O email é: coracional@bluewin.ch
Foto de 1986. Meu pai no centro dentro do balcão, Hélio Rezende, do lado esquerdo Adilson Urbano e do lado direito Sérgio Urbano. Fora dobalcão à direita o Badejo, o outro não sei nome. Foto e comentários de Eliane Rezende. Acrescentando o comentário do amigo Fernando Lopes Fernandes,(Mego): O nome do quarto da esquerda para a direita (que por ela não foi identificado) é Ronei Maurício, conhecido por todos como Bardinho. O “Barde”, como também era conhecido. Voltando à foto em questão, fica assim a nominata da esquerda para a direita: Sérgio Amorim de Oliveira (o Badejo), Sérgio Urbano, Hélio Rezende, Adilson Urbano e Ronei Maurício (o Bardinho).
BOA MISCELÂNIA
Daniel Cravo Silveira
O belo e saudoso texto do "seo" Munir, revolveu algumas lembranças do fundo lodoso de minha memória, fez saltar aos olhos uma lágrima travessa...
Lembro-me que saíamos da sessão das 18:30h do Cine Mussi ainda comentando o filme... excitados e alegres íamos na direção da Miscelânea. Passávamos pelo Vip's, dobrávamos a esquina e já dentro, o aroma dos sorvetes, das balas, dos chocolates, invadia nossas narinas arfantes.Para mim, os de nata e uva eram os preferidos...
No carnaval, nos dias de desfile, quando o trajeto serpenteava romanticamente o Centro Histórico, era impossível ir do jardim à miscelânea durante a passagem de alguma escola de samba. A multidão foliona comprimia-se nas calçadas contida em sua alegria apenas pela corda que a separava da rua. Éramos obrigados a esperar, sedentos, o Xavantes, o Bem-Amados ou o Amigos da Onça passar, para então "a toque de caixa", pelo meio da rua, ganhar a Miscelânea e seu oásis cremoso e gelado de tantos e saudosos sabores.
Passado o carnaval, eis a quaresma seus silêncios e ritos... e lá um belo dia, quando entrávamos Miscelânea adentro...as vitrines cobertas de ovos de páscoa! Uma explosão visual de cores e texturas que faria Hans Donner - o mago da Globo - corar!!
Eu, garoto, achava aquilo a própria visão do paraíso, que Deus em sua infinita misericórdia, permitia ver, justo a mim, pecador incorrigível - de jogar mamonas nos passantes no campo-de-fora e apertar campainhas e correr.
A rua da Miscelânia, que viu passar tantos carnavais! Foto de Jairo Viana de Oliviera Jr.
Quantos minutos ficava eu ali imaginando os prazeres que aqueles ovos encerravam. Estático, catatônico, embasbacado, diante daquele altar do coelhinho da páscoa. Quanta cor, quantos números: o ovo n°26 era lindo, pujante, dourado...ah! quantas vezes lascivamente o devorei com meu olhar.
Não havia outro lugar no mundo em que se vissem ovos tão belos, vitrines tão bem decoradas...apenas na Miscelânea!!> Santa quaresma...santa Miscelânea...santos ovos!!!!! Lembram quando chegou a máquina de moer café? Que ficava ao lado da porta central? Quanta modernidade para nós, não?! Era uma delícia colocar o saco aberto embaixo daquela enorme boca e apertar o botão...
Um som rouco invadia o ar junto com o aroma do café moído. Ficávamos olhando os grãozinhos indo descendo e sumindo para reaparecerem em pó, dentro do saco... E quantas vezes íamos a Miscelânea, porque sabíamos que nossa paixão juvenil lá se encontrava? Quantas vezes encostávamos no batente da porta a namoriscar a menina que, da outra calçada, cochichava segredos com as amigas, entre olhares e sorrisos?!
O que seria de nossa juventude sem a Miscelânea? Quantos amores e casamentos foram selados com um beijo com gosto de butiá, de côco, de nata...comido com pazinha de madeira... dando um bocadinho para o outro? A Miscelânea não era uma sorveteria, ou um bar, ou uma venda...seu nome encerra sua grande verdade: era uma miscelânea. Para nós - só hoje posso avaliar - era a nossa referência de prazer. O nosso ponto de encontro.
" - Então tá marcado! Lá na Miscelânea depois da missa!" Quantas vezes dissemos isso ou parecido...Foi-se a Miscelânea levada de roldão, pelo tornado do progresso. Este progresso que nos traz tecnologia, em troca de alegria.> Eis-nos mais tecnológicos, mais celularizados, mais plugados... e mais tristes. Que sabor tem um celular da Nokia? abacaxi, uva?? Resta-nos a Kibon, a Nestlé, a Yopa com suas embalagens plastificadas e coloridas...pálidas falsificações do verdadeiro sabor de um sorvete.
Foi-se junto um pedaço de nós. Uma parte envolta em acúcar, gelo e essências. Já não há mais vitrines multicores, nem sorvetes, nem sabores.A Miscelânea, seus odores e risos, jaz agora em nossa lembrança...nossos suspiros. E é nela, a memória, a quem recorro nos momentos de tristeza - como agora - fecho os olhos e viajo àqueles dias em busca de meu gostoso sorvete de nata! " - Duas bolas, por favor! E uma pazinha de madeira... "
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Nossa cidade tem uma das memórias mais ricas que já se conheceu. Não deixemos que morra em gavetas ou dentro de nós!