Pepinha (Luiz Paulo dos Reis) no seu Campo de Fora. Foto de Maria de Fátima Michels.
PEPINHA E SEU ETERNO CARNAVAL
Jacqueline Bulos Aisenman
Algumas destas pessoas que vão passando por nossas vidas acabam se tornando o que se chamaria de "personagens": pessoas iguais a nós, que convivem conosco, mas que estão na vida de toda a cidade, interagindo com ela e com seu povo. Pepinha é um personagem. Porque eu não sei que idade ele tem e nem de quão longe vem minhas lembranças dele mas sempre o vi passando, completamente em estado de graça, cantando os sambas que embalaram meus carnavais. - Ei, neta do dr. Abelardo! - Oi Pepinha! - Ele tá em casa? - Não, tá trabalhando... - Ah, vou passar lá depois. E ia. E o vô, sempre dava alguma coisa pra ele. Porque provavelmente o vô conhecia o Pepinha desde pequeno e o via tal qual ele sempre via as outras pessoas, com carinho. Os anos foram passando na cidade e todos foram de alguma forma se arrumando dentro das suas vidas, se enquadrando em empregos, mundando os seus status e as suas mentes. E ele, aquele cara magro, alegre, cantando, exibindo sua cor de pele negra, sua alma colorida de carnavais. Pepinha entoava seus sambas, uma ou outra parada estratégica para uma breve papo, quem sabe um trocado. - Tu não é a filha do Xaxá?- Sou... (menina já eu respondia isto...) - Neta do dr. Abelardo? - Sou...
Nesta foto da "Carioquinha", do Campo de Fora, à esquerda encontra-se Dona Marieta, mãe de Pepinha. Foto de Dalmo Mendes Faísca.
- Bonitinha ela, muito boazinha. Vai passear, vai... ei! - Que foi Pepinha? - Cadê teu tio? - O tio Jacques? - Não, o Paulinho Cebola. - Tá morando em Florianópolis. E com um gesto de descaso ele começava mais um samba e enveredava pelas ruas do Campo de Fora, chamando um, interpelando outro sobre algum assunto, dando mais uma outra paradinha na frente da casa de alguém. Pepinha tem seus amigos antigos (me jogo dentro da lista!) e mesmo seus jovens admiradores (há uma comunidade no orkut chamada "Eu conheço o Pepinha"). Ele é, incontestavelmente, "o" personagem atual das ruas da Laguna. Porque antes ele dividia o palco com vários, mas agora não creio que sejam tantos os "famosos". Como é que eu não esqueço dele? Por que eu lembro tanto dele? Respondendo a primeira pergunta eu diria que ele faz parte da família lagunense. E ninguém esquece a família, ele que o diga, quando há quatro anos atrás, na frente da casa da minha prima no Campo de Fora, ele pára e me olha: - Mas tu não é a filha do Xaxá? Cabecinha boa, meu senhor!!! Respondendo a segunda pergunta, simplesmente porque eu adoro lembrar das pessoas boas. Elas me fazem bem, me permitem esquecer as coisas ruins do mundo. E o Pepinha é justamente isto, desde que eu o conheço: alegre, divertido, cantador. Não me lembro de ninguém que tenha outra opinião. Mas sei de muita gente que gosta dele. Afinal, Pepinha é Pepinha, e mesmo se ele abandonar os seus "estados de graça", tudo que a gente torce é para que ele não nos abandone. E que sua voz continue a passear pela cidade alegrando e revivendo os paralelepídos da velha Laguna.
Luiz Paulo dos Reis é personagem na história do carnaval. Rei no nome e estrela solitária, brilhando em seu pequeno mundo. Pepinha, como é conhecido, é a imagem do último folião lagunense. Folião de Semana Santa, Procissão de Corpus Christi, Santo Antônio, Semana da Pátria e Quarta-Feira de Cinzas... O encontrei agora mesmo, na rua Pinto Bandeira (rua das cozinhas) aguardando a Procissão do Nosso Senhor Morto. Era craque de bola, mas trocou o Metropol pelo palco da avenida. Nunca mais voltou ao futebol.
Pepinha em foto de Valmir Guedes Jr.
Sem o, digamos, combustível etílico, é um sujeito tímido, passa aqui por casa e nem fala. Pedala calmamente sua bicicleta, irreconhecível. Quando menos se espera, surge no meio da rua, sob à luz do samba, cantando, cantando... Era Brinca-Quem-Pode, mas há muitos anos quando ouviu o Helinho cantar um então samba enredo, sucesso da Vila Isabel, trocou de Escola. Desde então seu repertório ficou exclusivo. Indivisível. Individual. Único. De uma nota só. Cá pra nós, leitor, quem sabe não sejam lembranças de um amor de outrora, de uma sinhazinha utópica criada não pela sua mente, mas desejada pelo seu coração? Nunca saberemos. Vá, folião Pepinha, canta, sorria, samba, seja eterno no teu único verso: “VEM CÁ, SINHAZINHA, VEM CÁ”.
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