Aqui nós vamos dar espaço aos personagens, amigos de todos, que fizeram e/ou fazem parte da vida de todo lagunense algum dia. Através deles vivemos momentos que não esquecemos. São pessoas muitas vezes esquecidas pela vida, que erram pelas. Algumas têm família, outras não. Algumas são de Laguna, outras não. De toda maneira, foram adotadas pela cidade em diversas épocas e acabaram por se tornar os personagens de muitas histórias. Lembra deles? Lembra de algum em particular? Tem fotos, histórias? Envie pra gente no email: coracional@bluewin.ch
EDITE
Edite, a Pandorga. Foto de Dalmo Mendes Faísca
Saudades da Edite, Pandorga, que voava pelos céus da Laguna e pousava doce em nossos chãos. Nesta foto, enviada por Tuffi Remor Mattar, ela refrescava-se nas águas do antigo chafariz.
EDITE
Jacqueline Bulos Aisenman*
Laguna das muitas histórias, daquelas que se conta e daquelas que se guarda. Terra de personagens que fizeram épocas, convergindo a simplicidade da vida até o profundo do existir. Todos nós que vivemos um dia em Laguna conhecemos a Edite. Baixinha, carrancuda, sempre caminhando pelos dias e pelas noites da cidade. Edite só foi Edite quando foi moça e morou na capital. Lá, contam que ela foi rapariga bela e charmosa, que conduzia seu caminho lado a lado a homens bonitos e ricos. Edite era Edite, da vida sim, cheia de vida. Quando a conheci ela já era a Pandorga. Rostinho magro e enrugado disfarçando os muitos anos, cabelos finos e grisalhos, um olhar e uma voz inconfundíveis. Não se sabe bem como ela veio parar em Laguna, cada um conta uma versão, mas o que importa é que ela está lá há tanto tempo que já faz parte do contexto. Quem foi criança antes de mim já conhecia a Pandorga, mulher faceira, amiga dos bares e dos copos cheios, diferente das mulheres que todos respeitam.
Edite, a "Pandorga", nos anos 70 no jardim. Foto de Gariba.
Cresci ouvindo meninos e meninas gritando: Pandorga! E ela responder com palavrões a todos, as vezes jogando pedras, correndo atrás. E atrás da Pandorga esteve sempre a mulher Edite. Ninguém viu, ninguém via. Como ninguém podia ver também naquela figura excêntrica, a velhinha escondida. Edite, com sua voz rouca, pedindo cigarros, um trocado, uma palavrinha. Pandorga bêbada, tropeçando, dormindo nas ruas, sem endereço. Lembro de uma vez em que tentaram acomodá-la no asilo para idosos. Ela foi, empurrada, mas foi. Em poucos dias estava longe, de volta à vida boêmia. A vida no asilo era muito calma, muito sem atrativos para Edite. Nunca consegui chamá-la de Pandorga. Dentro de mim sempre tive um profundo respeito por aquela senhora diferente, que ousava burlar os tabus rigorosos da Laguna. Aquela mulher encantadoramente marginal que conseguiu ser patrimônio de toda a cidade. Da Edite como Pandorga tantos contariam histórias. Mas ela mesma já é uma história e se confunde em todas as suas passagens. Uma pessoa como ela a memória arquiva sem consulta. E o coração registra como eterna.
*Publicado no livro "Coracional", da autora
Edite F. de Jesus, já com mais idade. Fonte desta foto: Comunidade na rede Orkut "Eu Conheci a Pandorga" criada por Luís Eduardo Ulysséa Rollin em 15.11.2007.
Edite, numa foto do Gê (Geraldo Cunha), de 1987.
Conheceu a Edite? Tem mais pra contar sobre ela? Tem fotos da Edite (Pandorga?) Mande aqui pra gente através do email coracional@bluewin.ch
Não deixe que esses personagens se percam no tempo, traga-os para cá e deixe-os viver através da memória viva!