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Monumento com o busto do Padre Manoel João Luiz da Silva. Na pracinha situada defronte "os vicentinos". Foto dos arquivos de Dalmo Mendes Faísca.



                            Uma pesquisa de Carlos Araujo Horn


Com texto compilado do livro "De Laguna a Brasília" de Antônio Paulo Filomeno com revisão de Lúcia Baungartem Filomeno


Espetáculo de Assinatura

A Companhia de Serafim Correia de sinetes, dramas, comédias, revistas e variedades apresenta o drama em três atos:
“O Assassinatoto do Paxá do Egito Durante o Domínio Inglês”.

Adaptação: Serafim Correia
Ação: Egito
Época: 1870

Direção Artística: Serafim Correia
Maestro e Compositor: Benedito Camargo
Distribuição: Paxá: Joaquim Silva  - Príncipe: Gaudêncio Mesquita – Secretário: Francisco Sestana – Coronel Major: Setembrino Fonseca – Camareira: Escolástica Silveira – Guardas: Ezequiel, Saturnino, Manoel, Matias.
Abrilhantará o espetáculo aplaudido Jazz Municipal do Sr. Manoel Bessa. Finalizará o espetáculo um belíssimo número variado de canto, samba, rumbas, tangos, anedotas, cortinas cômicas e lindos trechos de óperas e operetas.

Móveis cedidos pela Casa Araújo e Cia.
Preço Assinaturas: 45,00
Poltronas numerdas: 12,00
Balcão: 6,00
Geral:
3,00


Antigo teatro Vicentinos. Foto de 2008, arquivo deste site.


A seguir: O Milagre de Santo Antônio 


No dia da estréia a casa estava cheia, não só devido aos cartazes, mas principalmente a um eficiente serviço de som produzido por um fordeco que circulava com um alto falante encarapitado no alto da cabine, berrando dias seguidos aproveitando o vento nordeste, pois o que se gritava na Paixão era ouvido na Roseta e vice-versa, fenômeno digno de envergonhar as mais sofisticadas aparelhagens modernas de ampliação e transmissão sonoras.
A seleta platéia consumia sacos de pipoca, quilos de amendoim e pinhão, numa algazarra infernal.
Três pancadas tradicionais a aplicadas solenemente pelo seu Serafim. Abriram-se as cortinas: aparecia um quarto humilde decorado com móveis simples, sem a preocupação estilística ou fidelidade à época, (um tanto imprecisa), em que vivia o Paxá.
O Chico Sestana contorcia as mãos em desespero, chorava em altos brados, um pouco exageradamente na opinião do ponto e do diretor que observava tudo dos bastidores.
O silêncio na platéia somente era quebrado pelo mascar monótono e sincopado das pipocas e amendoins, em ritmo muar.
Subitamente, o secretário do Paxá sacou um “parabellum”, encostou na testa e para horror da platéia, disparou!
Mas o lagunense inventa, e como inventa!
Empolgado com sua atuação, querendo prolongar um pouco mais aquele momento mágico em que era a atração principal, tão logo efetuou o disparo fulminante, num gesto lento e dramático, soprou demoradamente a fumaça do cano da arma, e com o olhar semicerrado e longínquo, guardou o revólver na gaveta da escrivaninha, deu duas voltas na chave, colocou-a cuidadosamente no bolso do colete, para somente então, após um berro assustador, jogar-se “morto ao chão”.
A platéia veio abaixo, e o seu Serafim ordenou pano rápido para mudança de cenário.
Passaram-se os meses, mas não muitos, e o seu Serafim resolveu encenar outra peça, dessa vez de cunho religioso. A memória do povo é fraca e o escorregão no tomar dado pelo Chico já havia sido esquecido.


Antigo teatro Vicentinos. Foto de 2008, arquivo deste site.


O Serafim resolveu convocar para uma reunião nos Vicentinos o mesmo grupo que trabalhara com ele em peças anteriores e por descuido  ou por falta de opção, fez-se presente o Chico Sestana.
Como era época de Santo Antônio, o Serafim imaginou o drama que se relacionasse ao santo padroeiro e pretendia encena-l às vésperas das novenas tradicionais que antecedem à festa.
O título, depois de muita discussão ficou sendo “O milagre de Santo Antônio dos Anjos da Laguna”, e contava a história de um humilde pescador que era ateu e cuja fraca pesca mal dava para alimentar sua família, mas que por interferência do Santo que lhe apareceu em sonho, após promessa de se converter ao cristianismo, passou a pescar tudo quanto é tipo de peixe e camarão, ficando rico.
Os ensaios começaram logo em abril, e em maio já iam adiantados os preparativos dos cenários e figurinos.
O papel do Chico tinha sido escolhido de acordo com as suas aptidões, isto é, ele faria ponta logo no início do espetáculo (ah, que memória curta) e falaria pouco, pois tinha grande dificuldade em decorar o “script”.
A cena consistia no seguinte: aproveitando-se da ausência do ateu que estava pescando, Chico, que fazia o papel do irmão do pescador, varreria o casebre em que morava, e enquanto limpava o chão, lamentaria a sorte de ambos, a vítima da má pesca e da fome, e em seguida invocaria o Santo para ajudá-los. Era só isso!

Novamente casa cheia no dia da estréia; pudera, fazia um frio medonho e o povo, mesmo com “pé atrás” para o espetáculo do Serafim, preferia não enfrentar a ventania lá fora.
Vamos aqui fazer uma pausa e tentar convencer aos que lerem estes escritos que o Serafim não seve culpa de nada, e se suas pretensões a teatrólogo, ensaísta e revelador de talentos foram por água abaixo não foi por culpa dele e sim pela intolerância e birra dos padres, freiras e carolas presentes ao espetáculo. A responsabilidade mesmo jamais foi apurada, se bem que, à boca pequena, pesassem suspeitas sobre o diretor artístico, um tal de Zé Botinha, devido a uma antiga pendenga entre ele e o Chico pela disputa de um lote de tainhas que os dois haviam pescado “na meia”.
Ao abrir o pano, após as solenes marteladas de praxe, encontramos o nosso personagem entrando em cena; foi logo dizendo a frase ensaiada e pegando na vassoura de piaçava. Não havia dado ainda três varridas,  quando, para horror do seu Serafim, jogou a vassoura no chão e cheirou as mãos. Fulo da vida dirigiu-se aos espectadores e disparou:
-- Distinta platéia sei que isso não faz parte do espetáculo, mas u ainda vou descobrir o filho da puta que passou merda no cabo desta vassoura.

 Durante bastante tempo os padres e responsáveis pelos Vicentinos não autorizaram a realização de novos espetáculos naquele local. Quanto ao Chico, desistiu também de sua carreira de ator e voltou a tarrafear virotes nas tardes de vento nordeste na praia do Mar-Grosso.



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