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O "Seival" no porto de Laguna, no começo do século XX, quando viajava como iate comercial, sob o nome de "Garrafão. Comentário do Professor W.L. Rau, foto dos arquivos de Dalmo Mendes Faísca.



Abaixo, texto citado a partir do livro "Coisas Velhas" de Saul Ulysséa, editado em 1946")

O SEIVAL


Nenhum monumento para comemorar o centenário da República Catarinense, seria mais expressivo do que a conservação de um dos barcos transportados do Rio Grande do Sul à Laguna.
Navios que foram transportados em carretas em um longo percurso para a praia de Tramandaí.
Emprêsa titânica que os farroupilhas conseguiam com esfôrço sobrehumano.
Entretanto, penoso é dizer, que depois de termos em terra, um daqueles velhos barcos, o “Seival”, foi destruido em uma noite.
O “Seival” denominava-se então “Garrafão.
Navegou durante alguns anos transportando cargas do interior para a cidade. Quando estava êle imprestável para navegar foi puxado na praia do Estaleiro.
Ali esteve por muito tempo, sendo depois adquirido pelo médico italiano, dr. Paes, que pretendia transportá-lo para a Itália, segundo diziam.
Ao Superintendente Municipal aventei a idéia de que aquele navio deveria ser adquirido pela Municipalidade, que poderia desapropriá-lo, transformá-lo em um monumento histórico. Dei o plano de sua transformação com todos os detalhes, inclusive colocar na prôa um velho canhão que existia nesta cidade e que servira na revolução farroupilha.
Antes,  porém, de ser posta em prática a idéia, foi em uma noite aquela reliquia histórica, destruida completa e vandalicamente.
De tôda a embarcação só ficou a quilha por ser muito pesada e tudo o mais fôra carregado.
Não foi serviço de poucas pessoas e sim de muitas naturalmente associados para isso.
Nada foi promovido para descobrir os culpados daquele vandalismo.


O famoso "Seival"  barco das épicas aventuras de Garibaldi. Acabou tristemente em inícios do século passado depredado pelo povo. O Museu Anita Garibaldi conserva-lhe o mastro e uma lâmpada. Comentário do livro "Laguna antes de 1880". Foto do acervo de Dalmo Mendes Faísca.



O Seival atravessa por terra: glorioso! 



Abaixo, transcrição a partir do livro "Anita Garibaldi" de Wolgang L. Rau, editado em 1975" sobre o Seival)

O consagrado historiado catarinense, Dr. Oswaldo Rodrigues Cabral, em sua obra « História de Santa Catarina”, termina o capítulo III ‘A Guerra dos Farrapos e a República Juliana’, com as seguintes palavras magistrais:
“De toda a epopéia Juliana, restaram a glória de Anita e as ruínas do Seival. O lanchão, que assistira à luta desesperada dos bravos e se molhou com o sangue dos heróis, ficou encalhado à praia da Laguna. Mais tarde, curaram-lhe as feridas da guerra, mas perdeu a nobreza do nome. Dele fizeram um hiate mercante que recebeu o nome vulgar de ‘Garrafão’. Depois, os anos o inutilizaram  e na praia o esqueceram. E assim foi apodrecendo aos olhos de toda a Laguna, a relíquia da guerra que lhe imortalizou o nome. Por fim restou apenas a sua carcassa, o seu cavername, até que das suas juntas, entre duas vigas, brotou uma figueira. Brotou, cresceu e teve o dom de enternecer os corações lagunenses, refloridos pela palavra de um eminente historiador barriga-verde. Levaram  -na para o jardim da cidade, replantaram-na em tocante cerimônia cívica, e lá está até hoje, a ‘Árvore de Anita’.


(Árvore de Anita. Foto do livro do Professor Rau. ) Quanto ao ‘Seival”, continuou abandonado, desfazendo-se até que um anônimo, talvez apiedado, talvez insensível, não se sabe, certa noite, ateou-lhe fogo – consumindo-lhe assim o que dele restava.
Não ficou sem protesto a obra criminosa do desconhecido incendiário que destruiu o que restava do Seival. Em seu número de 16 de março de 1916, o Diário Vespertino “A Tarde”, da Laguna, trouxe em sua primeira página veemente condenação ao inglório ato degra  sevageria. Ei-lo em sua íntegra e grafia original:

“Desapparecêo o ‘Seival’.
Como uma lágrima cahida nos annaes de nossos feitos gloriozzos desapparecêo para sempre aos olhos dos que sabem venerar as relíquias da Pátria, a carcassa do intrépido companheiro material  da mulher que desembainhou a espada para com Ella luctar em duas Nações.
É lastimável, incrível, que um homem descesse até o último degráo da vilamnia para ir destruir aquelle sacrosanto emblema da Pátria!
Homem? Não. Féra, a mais carnívora, a hyena social que na calada da noite deixou a caverna para saciar o seu instincto desgraçado. É mais ínfimo do que a fera, porque esta faz pelo instincto natural, ao passo que aquelle o fez pelo sentimento da vileza. Roubou! Não só desceu do conceito social, como fez desaparecer para sempre a mais querida das relíquias Catharinenses .
Mattas extensas crestada algumas, pelo fogo, esse monstro vio; entretanto o seu côrpo jungido a indolência e o espírito corrompido não agitou essa mole, não induzio a algumas horas de trabalho honrado! Desceu... até ao crime! Esmagou a Consciência, riu da Justiça humana, riu do preito de admiração que votavam seus semelhantes áquella figura que as próprias intempéries poupavam.
Infeliz ‘Seival’!

Monstro! Como Judas, procurastes a sombra; como o vendilhão do Nazareno tu errarás na Terra, e que todos esses pezares que enlutam hoje o coração dos admiradores e conterrâneos de Annita, formem-se n’um espectro para medonhameto se tornar o phantasma do Remórso que te perseguirá eternamente.
Rasteja, rasteja, verme mizerável.(ass.) A. Pires



O Seival, já rebatizado "Garrafão", vivendo seus últimos dias.



Do Seival brotou a Árvore de Anita. Do pobre Seival pouco ou nada restou. A árvore, plantada no jardim em frente à Igreja Matriz, tenta sobreviver, Foto dos arquivos de Dalmo Mendes Faísca.



Árvore de Anita - hoje, vergonhosamente abandonada, único símbolo VIVO, da luta da heroina lagunense e Giuseppe Garibaldi. Foto recebida de Antonio C. Marega.



(Abaixo, texto citado a partir do livro "Coisas Velhas" de Saul Ulysséa, editado em 1946")

ÁRVORE DE ANITA

Para se fazer uma descrição circunstanciada da “Árvore de Anita”, que se encontra em um dos jardins publicos de Laguna, torna-se necessária uma resenha histórica, que será de agradável leitura para os que se interessam pelas cousas do passado.


*
*   *

Os revolucionários farroupilhas construiram no Rio Grande em 1839 três pequenos barcos, que com grande sacrifício foram transportados em carretas até a praia de Tramandaí, onde foram lançados ao mar. Emprêsa titânica que bem demonstra o espírito combativo dos  revolucionários e a fé inabalável da vitória dos seus ideais.
De Tramandaí viajaram até a barra do Camacho em S. Catarina, que transpuseram atravessando a lagoa do mesmo nome e riachos até a então vila de Laguna, onde chegaram em 22 de Julho sob o comando de José Garibaldi.
Naquêle mesmo dia foi tomada a praça pelas fôrças de Davi Canabarro, sem luta, porque a maioria dos lagunenses eram partidários da revolução, sendo as fôrças recebidas festivamente.
Em 15 de Novembro do mesmo ano feriu-se um combate naval no canal da barra de Laguna, entre a esquadrilha farroupilha e a esquadra imperial, sendo a esquadrilha aniquilada em conseqüência da inferioridade de armamento e de unidades navais.
Bateram-se os farroupilhas com denôdo. Quasi todos os comandantes da esquadrilha farroupilha pereceram em combate, bem como grande parte da guarnição, composta de riograndenses e lagunenses, que lutaram até a morte e entre êles o bravo lagunense João Henrique Teixeira, comandante do “Itaparica”, navio chefe da esquadrilha.
Os legalistas apossaram-se dos navios farroupilhas aproveitáveis, entre êles o “Seival”, construido no Rio Grande, que foi entregue ao comércio e empregado no transporte de mercadorias do interior para a vila.
Mudaram-lhe o nome para “Garrafão”! Barco bem construido serviu ao comércio durante muitos anos.
Tive ocasião de me entender com o chefe do govêrno municipal e com o presidente do Conselho, lembrando-os de que aquêle navio deveria ser adquirido pela Municipalidade e transformado em um monumento histórico, dando-lhe então o plano para sua transformação.
Tempos depois, um médico italiano que aqui clinicava, o dr. Paes, comprou o barco com o fim de transportá-lo para a Itália, segundo afirmavam.
Novamente insisti com o govêrno municipal para desapropriá-lo, não permitindo ser retirado da Laguna, principalmente para pais estrangeiro, uma reliquia histórica.


A antes frondosa árvore de Anita, no centro da cidade de Laguna. Arquivo deste site. Foto de 2008.

Antes de ser efetivada a desapropriação, em uma noite foi o barco vandalicamente destruido, ficando sòmente a quilha que, naturalmente devido ao tamanho, deixaram no local.
Muitas pessôas foram ao sitio onde estivera o velho “Seival” e entre êles um piloto de nome Antônio Joaquim de Sousa. Êste vendo em uma parte apodrecida da quilha uma muda de figueira que ali nascera casualmente, teve a feliz idéia de retirá-la e levá-la ao chefe do govêrno municipal para que fôsse plantada no Jardim Calheiros da Graça, o que foi efetuado.
Desenvolveu-se a figueira e hoje é uma pequena árvore.
Poucos anos depois de plantada, o desembargador José Boiteux obteve do governador do Estado, uma placa de prata onde foi gravado o seguinte: “Esta árvore nasceu na quilha do “Seival”, lanchão em que Anita Garibaldi combateu pela revolução de 1839.
Transplantada por Antônio Joaquim de Sousa que a ofereceu ao Govêrno Municipal. O Superintendente Municipal Oscar Pinho mandou plantá-la neste local em comemoração aos heróicos feitos da legendária Catarinense.
O governador Antônio Pereira da Silva Oliveira, como homenagem à Laguna, em cujo território nasceu Anita, em 1821, mandou gravar esta placa”.
Foi ela colocada em um suporte junto à árvore.
Ao ser entregue à Municipalidade pelo desembargador Boiteux, êste o fes com solenidade. Em seu discurso proferido na ocasião da entrega, referindo-se à destruição do “Seival”, declarou ter sido o ato praticado como protesto público à retirada da reliquia histórica para pais estrangeiro.
O Dr. Boiteux notou a coincidência de ser o tronco da árvore bipardido e dêles se derivaram quatro galhos. Representava o tronco, Anita e Garibaldi e os quatro galhos os seus quatro filhos.
Até 1939 era a “Árvore de Anita” o único monumento em Laguna, que lembrava Anita Garibaldi. Naquêle ano, ao completar o centenário da República Catarinense, foi erigido, na Praça da Bandeira, um obelisco a Heroina Lagunense.





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