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Navio "Itaquatiá". Foto de Dalmo Mendes Faísca.



Do livro "Coisas Velhas" de Saul Ulysséa:


A ANTIGA FROTA MERCANTE

Não conhecemos nem conseguimos obter notas das antigas embarcações que faziam o intercâmbio da Laguna com o sul até Montividéu, para a Colônia do Sacramento e para o norte até o Rio de Janeiro.
Eram sumacas e palhabotes comandados por bravos marinheiros como José de Abreu e José Lamego Costa,  para nos referirmos àqueles audazes e valentes marinheiros que alcançaram patentes na Armada Nacional. Devemos também lembrar o grande e bravo marinheiro João Henrique Teixeira, morto no combate de 15 de Novembro de 1889 entre a esquadra imperial e a esquadrilha farroupilha, sendo êle comandante da escuna “Itaparica” onde entregou sua alma ao Criador, em holocáusto à República.
Vamos fazer uma descrição da marinha mercante que conhecemos em 1880.

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O vapor Laguna, do Lloyd Brasileiro, misto de carga e passageiros, encalhado na Barra da Laguna, em 24 de outubro de 1921, antes das obras que melhoraram o dificultoso acesso ao Porto de Laguna. Construído em 1890, era o antigo Alexandria, da Empresa Esperança Marítima, do Rio de Janeiro. Foto de Dalmo Mendes Faísca.


A Laguna sempre fez boa figura com a sua marinha mercante, não desmerecendo a tradição que goza Santa Catarina de possuir ótimos marinheiros.
O almirante Alexandrino de Alencar afirmava que quem quizesse conhecer um marinheiro destemido fosse ver o caboclo catarinense na popa de uma canoinha atravessar à vela a baia de Florianópolis num dia de vento forte. O saudoso comandante Souza dizia que não encontrou melhores marinheiros que os de Laguna. Êle quando comandava vapores nos portos do Estadoi, adquiriu tal convicção e depois que foi transferido para a Linha de fora, mandava buscar marinheiros em Laguna para servir nos vapores que comandava.
Os navios da praça da Laguna sempre se distinguiram dos de outras praças e navios estrangeiros, tanto pela limpeza como pela elegância do seu aparelhamento.
Bem pintadas, metais polidos, mastros oleados, cordoame alcatroado, tudo demonstrava cuidado e capricho da marinheiragem daquele tempo.
O meu navio “não chora ferrugem” era uma frase que os capitães e os contra-mestres diziam com garbo.



O vapor Laguna, do Lloyd Brasileiro, misto de carga e passageiros, encalhado na Barra da Laguna, em 24 de outubro de 1921, antes das obras que melhoraram o dificultoso acesso ao Porto de Laguna. Construído em 1890, era o antigo Alexandria, da Empresa Esperança Marítima, do Rio de Janeiro. Foto de Dalmo Mendes Faísca.


“Chorar ferrugem” se referiam às manchas no costado produzidas pela ferrugem escorrida das pregaduras.
Há mais de século que os barcos lagunenses navegam para fóra do Estado contribuindo para o intercâmbio comercial com outras praças.
Tivemos ocasião de ler em um exemplar do primeiro número do “Jornal do Comércio” do Rio de Janeiro, anúncios de embarques de cargas para a Laguna, em barcos da mesma praça. Naquele primeiro número de há mais de um século, nada menos de três se faziam anunciar.
__________


Em 1880 possuia a praça de Laguna dezessete navios que viajavam para fora da província.
As viagens mais regulares eram para a praça do Rio de Janeiro.
Muitos hiates que viajavam para os portos da Provincia e maior o número dos que navegavam para o interior do município.
Existia também um rebocador de alto-mar – o Itaperubá, que fazia o serviço do porto e por vezes ia até Desterro.
Compunha-se a frota de um brigue escuna, duas sumacas e o restante eram patachos e palhabotes.
Damos abaixo os nomes dos navios, seus proprietários e capitães.


Navio no antigo porto de Laguna. Fonte: PML



“Gentil”, patacho e “Lagunense, palhabote, de Francisco Martins; “Esperança” patacho, de Guimarães & Genrios; “Apolo”, patacho e “Salvato” de Manoel Pinho & Irmão; “Cabral” patacho, e Manoel Cabreal & Filho; “Destino”, patacho, de Luiz Pedro da Silva Pinho; “Alegre”, patacho, de José Pedro Silva Pinho; “Liberal”, patacho, de  Henrique José Johany; “Luzitano”, “Santo Antônio” e “Firmeza”, patachos, de Custódio José de Bessa; “Wanzeller”, patacho e “Alzira”, brigue escuna, de J.J. Pinto Ulysséa; “Amparo”, sumaca, de Thomaz Fernandes Vina; “Boa Nova”, escuna, de Manoel Luiz Martins e “S.Pedro”.
Pouco tempo antes existiam:
“Americo”, “São Manoel” 1o,  “São Manoel” 2o e “Ulysséa”, patachos e palhabote “Três Irmãs”.
Posteriormente “Divo” que aqui chegou com o nome de “Rápido”, “Silvio Pelico” e “Camponez”, patachos.
O “Luzitano” vendido para Carneiro & Machado, mudou o nome para “Alvaro” e posteriormente vendido para Fernando Henrique Teixeira, passou a chamar-se “Cyro”.
Era o maior navio da Laguna, deslocando 190 toneladas, seguia-se o “Cabral” com 160 e brigue “Alzira” com 140. Os demais regulavam 90 toneladas e “S.Pedro”, “Boa Nova” e “Firmeza” eram menores, sendo o último de 70 toneladas.
Não podia o “Cyro” abarrotar porque naquela época a profundidade da barra era de seis a sete pés em maré alta e raramente oito pés.
A marinheiragem em sua maioria era lagunense e entre eles muitos portugueses e um ou outro de uma nacionalidade.
Moravam de preferência no bairro de Magalhães.
Admirava-se o luxo e elegância dos botes de cada navio e cada qual queria que o seu fosse mais belo e mais veloz.
Todos armados com duas velas e com mastros desmontáveis.
Os navios eram pintados externa e internamente e os convés sempre esfregado com areia para conservar limpo e assim o costado. O nome do navio em uma placa de ambos os bordos da popa; eram em letras douradas e no tope dos mastros, um catavento pequeno dourado, em muitos deles.


Navio Guaratan aportado em Laguna. Foto de Dalmo Mendes Faísca.


Naufragaram ao entrar a barra em consequencia de choque no banco de areia, os patachos “São Manoel”, “Camponez”, “Américo” e “Silvio Pelico” e os palhabotes “Três Irmãos” e “Salvato” e à saída patacho “Cyro”.
Este ao fazer a volta no canal para tomar a direção de saída, desgovernou-se indo de encontro às pedras do morro, abrindo água e se aprofundando logo.
Naquele tempo não existia o areal do lado do morro e o canal era junto ao mesmo.
São estes que guardo de memória.
A soldada era paga por viagem, redonda: ao capitão 200$000, ao contra-mestre 120$000, a cada marinheiro 50$000.
A tripulação recebia a ração diária de 1$000 o capitão,  $500 o contra-mestre e $240 cada marinheiro.
Com esta pequena e insignificante importância a tripulação passava muito regularmente e como não se uma tainha de 40 centimetros de comprimento mais ou menos, custava 40 réis, um K. de feijão 60 réis, um de farinha 30 réis, uma arroba de carne sêca superior 6$000 e uma dúzia de ovos 120 réis.
Com 100 réis o cosinheiro preparava uma fritada para toda a tripulação se sete a nove pessoas.
Alguns negociantes empregavam seus escravos nesse serviço.
O carregamento dos naviosa era feito por homens que percebiam 800 réis por dia e trabalhavam de sol a sol.
O “Warzeller” naufragou na praia da “Armação” ao norte de Desterro em consequência de forte lestada. Pereceram uma passageira e um tripulante.
O “Cabral” ao transpor a barra bateu fortemente no banco de areia começando a fazer água, que foi aumentando a ponto da bomba não dar vencimento para esgotar.
Na altura de Aguape e na iminencia de sossobrar, foi o navio abandonado.
A tripulação embarcou na lancha do navio rumando para a terra e a cêrca de uma milha presenciaram o espetáculo emocionante de ver o navio se tragado pelo mar.
Rumavam para a costa quando anoiteceu e aqueles homens lá iam ao léo da sorte, na iminência de serem arrojados contra algum rochedo da costa.
Apreensivos remavam sempre na dúvida de se salvarem.
Homens afeitos às tormentas e perigos, aguardavam o cumprimento de seu destino.
Rezavam muitos deles invocando a santa padroeira dos navegantes.
De repente sentiram que os balanços da lancha diminuíam até que se quedou em mar manso.


Vapor Tamoio em Laguna em 1924. Foto do arquivo pessoal de Dalmo Mendes Faísca.



Por um feliz acaso, verdadeiro milagre, na escuridão da noite a lancha transpôs sem o menor perigo a barra de Icapara, aliás muito estreita e que porisso não dá acesso aos navios que demandam o porto de Iguape, sendo obrigados a procurar muito ao sul, a barra do Cananéa.
Os demais navios foram vendidos nma maior parte para saveiros no porto do Rio de Janeiro.
Em Laguna ficaram o “Alegre” abandonado por imprestável, na praia da cidade, nas proximidades da rua 1o de Março e o “Liberal”, pelo mesmo motivo, no Areal, um pouco além do engenho Bianchini.
O último  viajar foi o “Santo Antônio” que mais tarde foi abandonado e afundado no local próximo ao em que foi edificado o prédio da Capitania do Porto.
Assim termina a velha frota lagunense.
A navegação a vapor e a gasolina de muito maior vantagens pôs têrmo à navegação a vela.
Dos antigos navios sabemos que o patacho “Firmeza”, foi construido em Laguna.
Foram capitães desses navios os Srs.: Manoel Oliveira, Manoel Bessa, Domingos Alves, Domingos Prates, Luiz de Jesús Correia, Mangorra, João Maria da Silva, Paiva, José Matosinhos, Domingos Maciel Pires, José Cravo, João Praça, João Paulo Cordeiro, Paulino Silva, Venancio Luiz Martins, Estanislau Cavalcante, Pedro Alcântara de Oliveira, Fernando Bainha Damazio, José de Andrade, Horácio Oliveira, João Rodrigues, Berkenbroc, Adriano, Jacinto Teodoro Pessoa, Manoel Cascaes, Domingos Alves e Manoel Bessa.


Infelizmente tudo não está nos livros... Então, se você conhece detalhes, fatos da nossa Laguna, conte pra gente! Se alguém contou pra você, conte pra gente!  Vamos partilhar com todos a emocionante história da Laguna!


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Uma frase inesquecível do Deputado Armando Calil Bulos, saída com certeza de seu coração lagunense:

" A LAGUNA, DE TANTO DE SER ESQUECIDA, APRENDEU A NÃO ESQUECER."