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Festa de Navegantes na Rua da Praia provavelmente no século XIX. Foto do arquivo pessoal de Dalmo Mendes Faísca.



Do livro Laguna de 1880 de Saul Ulysséa, editado em 1943 e gentilmente cedido por Carlos Araujo Horn.

(Conservamos a ortografia original do texto)


Na rua da Praia, hoje Gustavo Richard, a não ser no primeiro quarteirão, raras casas eram ocupadas para moradia. Em sua grande maioria serviam para estabelecimentos comerciais.
O primeiro quarteirão, da atual rua Osvaldo Aranha à Voluntário Benevides, começava por uma cêrca de táboas na primeira esquina, seguindo-se pequenas casas baixas, das quais ainda existem alguma. Em uma delas funcionava uma latoaria de propriedade de um funileiro espanhol de nome La Royede.
A da esquina da Rua Voluntário Benevides, mais alta, era ocupada pelo seu proprietário sr. José Fernandes Lima, conhecido por João Cravo. Possuia uma padaria de sua propriedade.
José Fernandes Lima, alto, magro, bigode e barba cerrada grisalhos, era de proverbial honestidade e gozava de estima geral.
Muitos serviços lhe deve o atual hospital, porque foi um dos que mais trabalharam na construção do segundo lance – lado norte.
Na esquina oposta, uma casa mais baixa de residência do seu proprietário, sr. João Batista da Silva, que além de um armazém ao lado de sua residência, possuia o hiate “Senhor dos Passos”, que viajava para o Desterro indo até Paranaguá e do qual êle era o mestre.
João Batista, português, muito moreno, usava barba cerrada e bigode, já grisalhos. Homem sisudo, falava pouco. De intimo bom. Fazia se estuimar por todos porque era honesto e trabalhador. Tinha empregado em seu armazem, o filho mais velho, Manoel Batista, naquele tempo muito jovem. Claro, alegre e bastante simpático e forte.
Em frente à rua Voluntário Benevides existia uma vala que dava escoamento às águas do morro próximo, para a praia.



Foto do começo do século XX. Nota-se a ausência do cais atual e ao fundo o antigo mercado público. Na lagoa, dois patachos (barcos) ancorados. Foto do arquivo pessoal de Dalmo Mendes Faísca.




A Rua de Baixo em foto do início do século XX, ainda sem o cais atual. Percebe-se o grande movimento da cidade. Arquivo pessoal de Dalmo Mendes Faísca.




Próxima às casas da esquina, uma pequena galeria de tijolos abrindo a vala, seguindo-se esta descoberta, sempre enlameada.
Ali aconteceu um caso interessante.
O Major Custódio Bessa, transportava-se de sua residência no Magalhães para a cidade, onde tinha escritório, em um cavalo bragado grande e reforçado. Uma ocasião cismouo animal de não passar pelo pequeno trecho próximo à vala. Compreendendo o major Bessa que o cavalo não estava disposto a atravessar o pequeno trecho porpendênncia apeou. Um senhor gordo e respeitável cujo nome ocultamos que presenciava o fato, com outras pessoas presentes, censurou o major, advertindo-o de que assim procedendo, poria balda no animal, que deveria empregar o chicote forçando-o a passar. O major caladamente entregou-lhe as rédeas para que êle o fizesse.
O homem tomou as rédeas pretendendo dar uma lição de equição. Montou muito lampeiro e empregou com energia o chicote no lombo e os calcanhares na barriga do bragado. Êste, que naquele dia estava um tanto indisposto, relutou, deu uma vira volta rápida e despejou o cavaleiro na vala. Levantou-se o homem furioso e muito vermelho, com as calças brancas enlameadas. Às risotas dos assistentes, respondeu encolarizado, com enérgicos frutos de São Tomé, recolhendo-se a uma casa vizinha.



Rua da Praia mostrando a construção do cais atual. A estrada de ferro já chegava até o centro da cidade. Foto do arquivo pessoal de Dalmo Mendes Faísca.




Foto do cais em construção. Nota-se a presença da estrada de ferro já no centro da cidade. Arquivo pessoal de Dalmo Mendes Faísca.




Na casa próxima à da esquina, uma alfaiataria pertencente ao sr. José Carvalho há pouco chegado de Itajaí. Um de seus irmãos que o acompanhou, Teotônio de Oliveira, era bastante inteligente. Foi mais tarde redator do "“uturo"” Muito temido, devido à sua linguagem atacante e ferina. Deixava-se dominar pela paixão política. Era estimado pelos seus correligionários e amigos.
Seguia-se a casa do sr. Salustriano da Silva, proprietário de uma tanoaria.
Salustiano Soares da Silva, claro, baixo e gordo, risonho e alegre.
Devido ao bom humor, dispunha de bôas amizades. Posteriormente foi negociante, tendo influência, no partido Liberal.
Na casa pegada funcionava a Agência do Correio, sendo agente o sr. Francisco de Sousa Dutra, conhecido por Chico Sousa e pertencente à respeitável família Sousa. Altura regular e gordo, era por todos considerado. Quando chegavam as malas postais, os negociantes e particulares, iam à Agência assistir à distribuição e receber a que lhes pertencia.
As malas eram abertas diante do público. Havia uma pequena grade de madeira dividindo o recinto da Repartição, muito pequena. Após uma pequena distribuição o Agente lia em voz alta o nome do destinatário, primeiramente as cartas e depois os jornais e impressos.
O destinatário, ou alguém por êle, ao ouvir proferir-lhe o nome, respondia – presente – ou pronto – e a carta ou jornal lhe era entregue.



O antigo centro e seus barcos. Foto recebida de Jairo Viana de Oliveira Jr..




Em 1920 as embarcações se preparam para a Festa de Navegantes. Foto e comentários de Dalmo Mendes Faísca.




(Continue a ler na próxima página)


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