Vista do Caminho do Magalhães. Arquivo deste site.
Texto do livro Laguna de 1880, de Saul Ulysséa, editado em 1943.
O antigo “Caminho do Magalhães”, hoje rua Calheiros da Graça, era a via de comunicação entre a cidade e o arrabalde, como atualmente. No extremo do caminho, além da rua Bragança, existia o depósito e trapiche de propriedade do capitão Francisco Fernandes Martins, onde atracavam os seus navios, patachos “Gentil” e palhabote “Lagunense”. Tanto o trapiche como o depósito ainda existem. Entre o depósito descrito e a rua Bragança havia um prédio velho, de propriedade do sr. Francisco Fernandes Martins, onde funcionava o pequeno hospital São Francisco de Assis. Francisco Fernandes Martins, conhecido por Chico Fernandes, era armador, tendo na cidade seu escritório e uma loja de ferragens que descreveremos adiante. Alto, magro, claro e vermelho, olhos azues, cabelos e barba alourados, já grisalhos. Pertenciaà tradicional familia Martins, do Siqueiro. Homem sisudo e de poucas palavras, honesto e acatado. Era um dos próceres do partido Liberal. Espírito empreendedor, estabeleceu o primeiro engenho a vapor de beneficiar arroz, em toda a zona sul da Província, engenho que funcionava em um dos seus depósitos, no Magalhães. Construiu poucos anos depois de 1880 um prédio para sua residência na esquina da rua Bragança, onde funciona atualmente o grupo escolar “Stella Maris”. Era, na época de sua construção, o melhor prédio particular. A parte fronteira àquela casa, na ponta do morro, denominava-se “Alminhas”. Na encosta do morro, um grande sambaqui, cuja casca servia para aterro das ruas dali retirada durante muitos anos. Na parte próxima ao mar, o terreno se elevava, formando barranco, onde existiam grandes blocos de pedra. Tudo desapareceu com o nivelamento da rua Calheiros da Graça. O caminho em direção à cidade, sem nivelamentos e beirando a praia possuia poucas casas, todas baixas.
O caminho do Magalhães, a chamada "Paixão". Foto de Dalmo Mendes Faísca.
Na primeira, a partir de Alminhas, morava seu proprietário, conhecido por Augusto Francês por ser natural da França. Era carpinteiro construtor de embarcações; denominavam-n’os “carpinteiro da ribeira”. Nunca aprendeu a falar bem o português. Um pouco adiante, morava um marcineiro de nome João Laguna, velho muito pachorrento e amigo das crianças. Fabricava com muita perfeição piões e monas (um pião com dois ferrões que as crianças aparavam, fazendo girar entre as duas mãos) muito usadas na época. No tempo de uso dos piões, a garotada procurava a oficina do João Laguna, para comprá-los, desde 40 rs. a 160 rs. os muito grandes. Quando acabava a época do pião a garotada se entregava às pandorgas e papagaios, depois à bora de vidro para o jogo de bóca, depois ao arco, guiado por um pequeno páo. Eles chamavam móda. No inverno era a caça de passarinhos. O ponto de confluência das atuais rua Calheiros da Graça e Osvaldo Aranha, denominava-se Paixão. Havia ali uma elevação do terreno que baixava suavemente dali para adiante. Começava a subida nas proximidades da rua Osvaldo Aranha. Em uma lage existente na Paixão havia argolas de metal encravadas bem firmes que serviam para aplicação de aparelhos para adernar os navios, quando precisavam de pequenos concertos, ficando os mesmos de querena.
Vista da Paixão para o centro. Foto de Dalmo Mendes Faísca.
MORRO DA PONTA DO MAGALHÃES
Denominado hoje, morro dos Martins. A maior parte dêste morro pertencia ao capitão Francisco Fernandes Martins e ficava dentro de seu terreno, todo murado. Na ponta do morro, fóra do muro, existiam algumas casas pequenas, todas cobertas de palha.
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