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Com textos do livro Laguna de 1880, de Saul Ulysséa, publicado em 1943.


Antigo mercado público. Foto do arquivo pessoal de Dalmo Mendes Faísca.




                                                      A CIDADE

Por toda a praia era despejado o lixo das casas próximas e os detritos de cozinha, durante o dia, o que era feito em latas e em caixotes. Nessas ocasiões era grande o número de urubús que afluiam ao local, disputando com os cães o que podiam aproveitar.

À noite após o fechamento das casas comerciais varejistas, todos evitavam passar pela rua da Praia, porque era a hora do despejo de matérias fecaes, conduzidas em barris e latas por escravos ou creados. Havia pretos incumbidos de tal serviço a preço barato.

Davam-se por vezes episódios nojetos, provocados por individuos que pretendendo fazer espírito, empurravam os condutores de latas, na escuridão da noite.

Não havia então iluminação de espécie alguma.

A iluminação pública a petróleo só foi inaugurada em 1891.

Na época em que o limo despreendido do fundo do mar, flutuava e era maré arrojado à praia, o gado solto, principalmente pela manhã, era atraido para ali.

Em vários pontos da praia viam-se vacas com bezerros, fartando-se na gratuita ração.



Vista da Rua da Praia. Foto do arquivo pessoal de Dalmo Mendes Faísca.



Quando o limo apodrecia e antes que fosse retirado dali, o que era demorado, produzia exalações fétidas que eram sentidas até nas ruas centrais. Contavam-se muitos trapiches ao longo da praia, para atracação de navios. Constavam de um cáis de alvenaria, com uma ponte de madeira mais estreita que o cáis, do lado do mar. Conforme a profundidade do local os trapiches iam mais ou menos fora.

Mas pontas dos trapiches a profundidade do canal era muito maior que a de hoje. As embarcações pequenas ao atravessá-lo quando faltava o vento ou era contrário, serviam-se de varas de cerca de sete ou oito metros, que mal alcançavam o fundo.

O primeiro trapiche, próximo à rua Conselheiro Jerônimo, pertencia à firma Manoel Pinho & Irmão onde atracavam seus navios patacho “Apolo”, palhabote “Salvato” e o pequeno hiate “Nobreza”.

Outro próximo ao local onde está o atual Mercado público, de atracação dos navios pertencentes à firma Custódio José de Bessa. Este trapiche era de duas pontes e ali atracavam os patachos “Luzitano”, “Santo Antônio” e “Firmeza”, daquela firma.

Outro nas proximidades da rua 1o de Março, da firma J.J.Pinto Ulysséa, para o serviço de seus navios brigue-escuna “Alzira”, patacho “Wenzeler” e hiate “União”, além de dois menores: “Senhor dos Passos” e “Netuno”.




Vê-se o antigo mercado público e, à esquerda, o vapor Max que, durante muito tempo, fez o transporte de carga e passageiros entre Laguna e Florianópolis. Foto de Dalmo Mendes Faísca.



O último trapiche, próximo ao morro de N.Senhora, pertencente à firma Tomaz Fernandes Viana, para atracação de seu navio, a sumaca “Amparo”.

O mar chegava geralmente à altura onde está edificado o passeio  da atual rua Gustavo Richard, do lado do mar. Sómente no quarteirão do Rincão, atingia, nos dias de maré alta, as soleiras das casas.

Por toda extensão da rua da Praia eram puxadas canoas de todos os tamanhos e em alguns pontos, lanchas para consertos.

No cáis dos trapiches viam-se marinheiros, sentados sobre velas de navios estendidas, de repuxo e agulha, palomando-as e cosendo-as, em alegres algaravias. Surgindo por vezes pilhérias obcenas com gestos adequados, muito do gôsto daquela gente.

Era de muito agradável efeito, a parte do mar, devido aos muitos navios atracados nos trapiches e outros fundeados ao largo.

Depois de carregados iam para o canal da barra, aguardar ventos do quadrante sul, para saída.

Como não estava em tráfego a estrada de ferro, toda a carga vinha doo interior em hiates, canôas e lanchas de fórma que o pôsto era muito movimentado.

Não havia nivelamento, nem das ruas nem dos passeios, que eram feitos à vontade dos proprietários, quando os faziam. Variavam em altura e largura, feitos de pedras, sem traço.



Vista parcial do cais e fundos do antigo mercado público. No fundo, à esquerda, a Casa Brasil, que se localizava em frente ao mercado. Foto de Dalmo Mendes Faísca.



                                                 BANCA DO PEIXE


Em frente à rua Tenente Bessa, no lugar onde está edificado o Mercado Municipal existia a banca do peixe, assim denominado o local para a venda do pescado.

Constava de um telheiro de cêrca de seis metros por quatro , um estrado de madeira ao centro, de um metro de altura com cerca de três de largura e quatro de comprimento, com inclinação para o lado do mar, a-fim de escorrer a água e tendo uma escada na parte mais baixa. Era ali que se realizava toda a venda do peixe para o consumo público.

Os pescadores quando se aproximavam da cidade com suas canôas contendo peixe, usavam uma buzina formada de um chifre curto furado na parte mais fina por onde sopravam de certo modo a produzir um som roufenho bastante forte, para anunciar de longe a sua mercadoria, sendo o som ouvido à grande distancia.

- Está buzinando, diziam as donas de casa e despachavam para a banca, escravos ou creados a fim de comprarem o peixe.

Os preços eram baratíssimos comparados com os de hoje, mesmo relativamente à época.



Rua da Praia, com vista do cais e do antigo mercado público. Foto do arquivo pessoal de Dalmo Mendes Faísca.



Rua da Praia, com vista do cais e do antigo mercado público. Fotos do arquivo pessoal de Dalmo Mendes Faísca.



Uma tainha de mais ou menos quarenta centimetros da ponta da cauda à cabeça, era vendida a 40 rs.; tainhotas a quatro e seis por 20rs., conforme o tamanho: miragaias de 800 rs. a 1$200; pescadas a pouco mais. Os demais peixes na mesma proporção. Sómente o bagre custava menos.

Outros gêneros de consumo eram vendidos nas praias em diversos pontos, a preços que parecerão hoje irrisórios: ovo a 120 rs. a dúzia, carne de porco a 400 rs. o quilo, de vaca, a  360 rs., farinha a 2$000 o saco de dois alqueires, que regulava 42 quilos, feijão preto a 4$000 o saco, milho a 3$000, carne seca do Rio Grande a 6$000 a arroba, galinhas a 700 rs., perúas a 1$000. Os demais gêneros nesta proporção.

Havia um processo especial para o preparo de carne salgada que tomava muito bôa aparência. Chamavam “carne da terra” ou da “Barra”. A que hoje preparam com aquela denominação não tem paridade com a daquele tempo. Ficava ela um pouco escura e com a gordura amarela, transparente, mas sobretudo o que a distinguia das demais carnes preparadas era o cheiro agradavel que desprendia e que despertava apetite. De ótimo paladar. O armazem que a possuia ficava impregnado do seu aroma caracteristico, denunciando sua existência, aos que passavam pelas proximidades. Remetiam-n’a para o Rio de Janeiro e outras localidades como explêndido presente que era apreciadíssimo.



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