Apresentamos à curiosidade do leitor uma pequena história para os que se interessam pelas cousas do passado. Nesta resenha singela a par dá verdade entra a lenda, como manifestação do espírito religioso da época e que conservamos para não esmaecer a simplicidade mas sempre simpática da crença popular. Como já escrevemos páginas atrás, existia no antigo Campo do Manejo, uma capelinha coberta de palha, único templo então existente. No morro de Santo Antônio ao fundo da capelinha existiam diversas roças de mandioca, que era transformada em farinha em dois engenhos estabelecidos naquele campo. Existia naquela época mais dois engenhos no morro da Fóra, hoje da Independência. Era naquele templosinho que a população lagunense ia buscar a paz e o confôrto para sua alma de crente. Pobres como eram então, não tinham recursos para que a sua igrejinha ostentasse ricos pensamentos mas adornavam àquele recinto sagrado com o mais valioso dos ornamentos – a fé. A própria imagem participara daquela simplicidade. Passaram-se os anos e a população aumentava e assim seus recursos pecuniários. Surgiu a idéia da edificação de uma capela maior, construída de pedra e cal, o que foi efetuado em 1796. Construida a nova capela foi desmanchada a antiga capelinha coberta de palha. Cada taboa que deslocavam ou trave que desmontavam como que se desfazia a corporificação de uma época, o conjunto de uma geração. E tudo quanto ali fez a alma religiosa de um povo simples e bom, só restou a imagem de Santo Antônio. Onde colocá-la ? Para a nova capela viera uma imagem encomendada na Bahia e a capela só tinha um altar.
Decidiram enterrá-la, o que foi efetuado sob a soleira da porta lateral direita. Hoje está dentro do templo, com a construção do edifício da sacristia. Ainda hoje o corpo da imagem enterrado naquele local, se não foi consumida pela ação destruidora da humidade. A cabeça porém ainda existe e é guardada com cuidado e veneração. Como foi exumada ? É o que o leitor vai saber. Existia no lugar Congonhas, no então distrito de Tubarão, uma senhora de nome Ana Ribeiro, lagunense, que possuia naquela localidade uma fazenda com alguns escravos e era proprietária de uma casa em Laguna onde vinha para assistir as festividades e recrear-se por algum tempo. Uma ocasião fugiu um de seus escravos mais valiosos e d. Ana mandou procurá-lo por diversos lugares dando indicações precisas e prometendo recompensa a quem o encontrasse, mas tudo inutilmente. Sem esperanças de encontrá-lo d. Ana, conservava intensa devoção pela antiga imagem de Santo Antônio, fez a promessa de que mandaria exumá-la e dar-lhe-ia um altar, se encontrasse o escravo. Pensou talvez em construir uma pequena capela para entronizar o Santo, em sua fazenda. Poucos dias depois lhe foi comunicado que o preto fugido estava na cozinha. Ali d. Ana encontrou o pobre escravo, andrajoso, com a barba crecida, tomado o susto, contando o que se havia passado. Impressionada pela narração do escravo e mesmo por ser uma bôa alma, deixou a senhora de aplicar ao escravo o castigo que merecia, segundo o costume da época, que foram conservadas com a mesma brutalidade até a promulgação da lei 13 de Maio. Contou o preto que se tinha refugiado nas matas próximas e que na noite anterior fôra acordado subitamente, vendo em sua presença um frade que lhe intimou a que voltasse para casa. Tomado de espanto e de pavor ficara estatelado, vendo então o frade tomar dos cordões e fustigá-lo com força, forçando-o a correr em direção à casa de sua senhora. O frade seguia sempre até às proximidades da casa. A lenda é um tanto irreverente a Santo Antônio, por não ser possível crer-se que a pureza de um Santo se maculasse, entregando uma pobre vítima da escravidão à brutalidade de seu senhor ou senhora. Ela passou da geração em geração até os nossos dias. D. Ana Ribeiro em cumprimento à promessa feita, obteve permissão para exumar a imagem, o que foi feito e presenciado por uma multidão ávida e curiosa. O corpo foi encontrado em grande parte apodrecido, porém a cabeça estava em perfeito estado e por essa razão foi retirada e enterrado no mesmo local, o corpo apodrecido. D. Ana levou a cabeça para a sua casa em Laguna, onde se demorou alguns dias, com o intúito de levá-la para a sua fazenda. Dias depois, já preparada para viajar, caiu forte tempestade que obrigou-a a adiar a viagem. Passada a borrasca e estando o tempo calmo, seguiu d. Ana. Em viagem caiu forte pampeiro que obrigou-a a voltar. Julgou então que a imagem não queria se afastar de Laguna e resolveu deixá-la aos cuidados de uma família de suas relações. Sempre que vinha à cidade ia fazer preces junto à sua reliquia, conservada dentro de uma redoma de vidro Por morte de d. Ana Ribeiro houve a quem ficaria pertencendo. Ainda é guardada religiosamente em casa de uma família respeitável.
UMA TRADIÇÃO POUCO CONHECIDA
Explicada pelo Professor Márcio J. Rodrigues.
Pouca gente conhece a pitoresca "Descida de Santo Antônio" na igreja matriz de Laguna nas festividades de junho.
Manobras cuidadosas, cheias de reverência e religiosidade são desenvolvidas para a delicada remoção da preciosa imagem de seu nicho no altar mór e transferência temporária para o andor que o levará em procissão.
Primeiro ele é despido de todos os complementos móveis, a cruz , o resplendor, a mão direita e o Menino Jesus.
Depois da delicada transferência, devotos mandam de muitos lugares, bilhetinhos com pedidos de graças que serão colocados dentro da imagem ou no capuz do santo franciscano. Não deixa de ser comovente, a separação do Menino
... ..., que nesta noite, ganhará uma roupa nova, escolhida entre as muitas que recebe por um carinho especial ou cumprimento de promessas.
Santo Antônio, pronto para a festa.
Sequência de fotos e texto recebidos do Dr. Márcio J. Rodrigues, Professor e Escritor.
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