O texto que segue foi uma pesquisa de Mirella de Jesus Honorato, Soeli Regina Huk e alunos do curso de Turismo para a festa de 2006.
As fotos fazem parte da decoração da Festa de Santo Antônio de 2009, feita por José Alves, conhecido e estimado Mala, e enviadas por sua cunhada Ma. das Graças Silva.
Lendas e Veneração de Santo Antônio
Domingo de Brito Peixoto levado por seus sentimentos católicos, tinha como preocupação principal levantar o templo para as práticas religiosas templo que consagrou a Santo Antônio dos Anjos. Denominação diferenciada e única no mundo, que se dá em dois aspectos: Santo Antônio de Lisboa e Santo Antônio de Pádua e ainda, em Laguna Santo Antônio dos Anjos (única no mundo). A veneração a Santo Antônio foi herdada dos açorianos quando trouxeram para cá sua cultura religiosa, pois acreditavam que o homem já nascia com o destino traçado e somente os santos eram os únicos que poderiam interferir junto a Deus para mudar este destino. Outro aspecto que se dá a esta devoção é pelo fato de Santo Antônio dos Anjos fazer parte da história de Laguna. Muitas lendas envolvem e se misturam com a história do município, fatos comentados pelo povo revelam a presença do santo na cidade. Segundo alguns historiadores essa denominação se dá pelo fato da povoação ser fundada possivelmente no dia 02 de outubro, dia do ANJO DA GUARDA.
Outra hipótese é que o frei Alberto Ortmann, o franciscano que acompanhava Domingos de Brito Peixoto, em 1696, começou a eregir em Laguna a capela de Santo Antônio dos Anjos, em vocação típica dos Franciscanos, lembrando a capelinha de Nossa Senhora dos Anjos, berço de sua ordem em Assis na Itália. Outra hipótese seria de que a fundação desta, teria ocorrido no terceiro domingo de julho, quando os portugueses festejam o dia do Sto. Anjo da Guarda, protetor de Portugal.
Imagens de Sto. Antônio dos Anjos
A primeira imagem a ser venerada seria de madeira com aproximadamente 73 cm, trazida pelo fundador Domingos de Brito Peixoto, atualmente usadas nas festas alusivas ao seu padroeiro, tais como, procissões motorizadas no dia 13 de junho e nas serenatas, que é uma carreata feita no dia 30 de maio, anunciando assim a abertura das festividades, que duram geralmente do dia 1º ao dia 13 de junho, ambas percorrendo as principais ruas de nossa cidade, e também as casas dos festeiros.
A segunda imagem Sto. Antônio venerada pelos colonizadores era de roca, isto é, corpo de madeira bruta feita para ser vestida de pano, sendo apenas a cabeça, mãos, pés de madeira revestido com gesso e depois pintado. Esta imagem tinha um Menino Jesus em seus braços com anatomia completa, sendo também recoberta de gesso e pintura. Com o passar do tempo, esta imagem encontrava-se em mau estado, sendo então substituída pela imagem atual entalhada no século XVIII. A imagem de Santo Antônio, então deteriorada, foi enterrada no lado sul do altar – mor, ficando apenas a imagem do Menino Jesus, que por estar intacta, foi recolhida e ficou sobre a guarda da igreja. Esta imagem de roca teria sido encontrada na praia, enterrada em uma caixa onde a água do mar estaria sempre a molhar. Foi então trazida para a igreja para ser venerada, e, como ela encontrava-se molhada pela água do mar, dizem os antigos, que por mais que enxugassem os pés de Sto. Antônio, estariam sempre molhados. Por este fato é que existe registro em alguns livros de que esta imagem fora batizada como SANTO ANTÔNIO DOS ANJOS DAS AREIAS.
A terceira imagem que hoje emoldura o altar-mor, em tamanho maior que o natural, foi esculpida na Bahia, no século XVIII, em cedro, sendo levado de Laguna e remetido para este fim. Imagem isenta de misticismo, de olhar alegre e lábio em sorriso, traz na mão direita uma grande cruz de prata, na mão esquerda o menino Jesus, meigo e formoso de pé sobre as Escrituras. É coroado por um rico resplendor de prata cinzelada, cravejado de topázios. Pendente do peito por uma fita de veludo vermelho, um hábito da Ordem de Cristo, cravejado de perdas semi-preciosas, brancas e vermelhas. O artista que a esculpiu, devia ser um artista original, pois não é comum encontrar-se imagens sorridentes e de ar festivo, além de ter ousado enfeitar, com uma larga orla dourada, o humilde burel de franciscano. Apesar de ter produzido uma obra de arte, não deixou gravado nela um nome, um número, uma data ou outro qualquer sinal que o pudesse identificar.
LENDAS
CRUZ NO MÁRMORE: Santo Antônio, quando criança, estava certo dia a rezar após a missa, quando sentiu a presença de algo assustador, o demônio queria assustá-lo para que se afastasse de suas orações. Já sem forças para fazer sua oração, Antônio traçou o sinal da Cruz no Mármore dos degraus. Essa marca ficou impressa e, os peregrinos até hoje a veneram no Santuário de Nossa Senhora do Pilar, em Lisboa.
O MENINO JESUS NO COLO DE SANTO ANTÔNIO: Certa vez, Frei Antônio parou em um mosteiro para passar a noite. Já em seu quarto colocou-se em oração, então um atendente veio até ele para perguntar se precisava de mais alguma coisa, quando encontrou a seguinte cena: Frei Antônio está parado, com o quarto todo iluminado e tendo o Menino Jesus ao colo. Esta cena foi contada e perpetuada pelo atendente do mosteiro que, ao abrir a porta deparou-se com ela.
Fechamento da Barra do Camacho: de acordo com o depoimento de muitos fiéis, um certo dia a Barra do Camacho amanheceu fechada, dificultando o trabalho dos pescadores locais. Mas, no dia seguinte, a Barra apareceu aberta novamente. O povo, espantado com o fenômeno, notou que existiam pegadas em cima dos combros de areia. A partir daí, seguiram esses passos e verificaram que as pegadas entravam na Igreja Matriz, seguindo até o altar.
Cabeça de Santo Antônio: havia no Siqueiro, uma senhora abastada, Dona Ana Ribeiro, senhora de engenho e que possuía escravos e uma casa na cidade de Laguna para passar as festas, onde eram realizadas com a maior pompa, atraindo moradores dos arredores. Tendo um de seus escravos, aliás, o de maior estima da senhora, e dizem que também de mais valor, cometido uma falta qualquer, a senhora ameaçou-o mandá-lo para o tronco, a fim de ser castigado, o que era somente uma ameaça. O escravo, temendo o castigo, fugiu. D. Ana Ribeiro mandou que o procurasse, mas sem nenhum resultado. Foi, então, que boa senhora se lembrou de Santo Antônio, quer por sua devoção, quer por seu padroeiro das coisas perdidas (parece que os escravos, naquele tempo, eram considerados coisas). Foi assim que ela, levada não sabemos por que sentimentos, prometeu ao Santo que, se seu escravo aparecesse, mandaria desenterrar a sua antiga imagem, naturalmente para venerá-la. Passados os dias, ela é chamada à sala, à noite, avisando que o escravo estava de volta. Indo à cozinha, encontrou-o, de fato, abatido, famélico, e a tremer. Interrogado pela senhora por que fugira, respondeu ser por medo do castigo, e assim estivera no mato todos aqueles dias, sem pão nem cama, mas que, naquela noite estando deitado, chegara perto dele um frade dizendo: “negro, volta para casa de tua senhora”. E, pegou o cordão que trazia preso à cintura, e alcançou a ponta para o menino e conduziu-o até ao portão da fazenda.
Milagre para os crentes, ficção para os descrentes, o fato é que o escravo apareceu e D. Ana veio cumprir a sua promessa. Mas, ao desenterrar a imagem, que, como dissemos era de roca, o corpo só de madeira estava estragado, restando apenas a cabeça, talvez por ser revestida de massa de gesso e pintura.
Ela, então, recolheu a cabeça e a levou para sua casa em Laguna. Contam mais, que, querendo levar a cabeça para sua fazenda, tentou diversas vezes, mas sempre se levantam temporais, que impediam a travessia da lagoa. Ela compreendeu, então, que deveria deixá-la em Laguna, e aqui a deixou. E até hoje, a “cabeça de Santo Antônio” assim permanece.
Coisas perdidas: aconteceu que um jovem frade, passando a não gostar mais da vida no convento, de lá fugiu, levando consigo um livro muito caro a Santo Antônio, que dele se servia para o seu ensino. Uma aparição infernal teria bloqueado o caminho do pequeno ladrão em fuga, constrangido a retornar ao convento para restituir o precioso volume. Há quem veja nesta ocorrência, a origem da devoção a Santo Antônio como restituidor das coisas perdidas-como vem invocado na sua ladainha.
Santo Casamenteiro: Sto. Antônio vivia em contato com as multidões, sobre tudo os mais pobres, mas também se sensibilizou vendo moças impedidas de se casar por causa das exigências da lei do “dote”. Conta à lenda que uma donzela de sincera vida cristã não conseguia casar-se por não possuir dote. Recorreu confiante a Sto. Antônio. Das mãos da imagem do Santo caiu um papel com um recado assinado, a um prestamista, pedindo-lhe entregar a moça, em moedas de prata, o correspondente daquele papel. O prestamista obedeceu, sem mais a balança somente se equilibrou quando as moedas atingiram o valor de um dote.
Um milagre de fé: um dos milagres misteriosos presenciados pelo artista Alcides Boza está relacionado com uma das vigas de sustentação da Matriz. Com extensão de 12 metros cada, a mesma sustentava um peso de mais de cinco toneladas na parte na parte frontal da igreja. Alcides conta que as pontas estavam apodrecidas e cederam cerca de 30 centímetros, o que as deixavam suspensas no ar. “A igreja só não desabou por intervenção de uma força superior. Santo Antônio, além de sustentá-la nos ajudou a substituí-la. Isso só pode ter sido milagre!”, acredita Boza.
Milagre na igreja: contam os moradores da cidade que quando Santo Antônio está de mau humor sua imagem, ao ser retirada do altar, fica mais pesada que o normal.
São diversas as histórias sobre os milagres de Santo Antônio, diz Ladislau Domingos Cavalheiro que certa noite ao dormir teve um sonho onde Santo Antônio lhe dizia que a escada do coro da igreja estava pegando fogo, ao acordar, foi verificar, e surpreendido, a escada estava realmente pegando fogo a bastante tempo. E em 1944, foi comprovado que, a escada, realmente teve um princípio de incêndio. Outro milagre ocorreu com o mesmo sacristão no momento em que ele estava aprontando a sacristia para a missa do dia seguinte, quando foi surpreendido por um ruído, que o levou ao centro da igreja onde viu que tudo estava em ordem. Voltando, para a sacristia, ouviu novamente o ruído e acreditando que fosse obra de Santo Antônio, foi até sua imagem e percebeu que havia uma vela acesa, já caída, começando a queimar as toalhas do altar.
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